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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Quando fui outro - Livro da semana

Título: Quando fui outro
Autor: Luis Ruffato
Edição: 1ª
Páginas: 234
Editora: Alfaguara
ISBN: 978-989-672-042-1
CDU: 821.134.3-1"19"
Sinopse: Quando o lemos interrogamos o real continuamente e verificamos que parcela de identidade se nos compõe. Em cada leitura descobrimos palavras novas, significados diferenciados. Em cada página que ele nos dá pensamos nesse pedaço de eternidade que é o presente, ameaçado pela efemeridade dos instantes quase incandescentes e o futuro maravilhado em tantas linhas de horizonte. Em cada uma das suas páginas um exército de críticos e analistas enquadra-o em heterónimos, em possibilidades, em estados de espírito, em sensações múltiplas. As suas páginas são também a sua biografia. Ele concedeu-nos essa unidade desafiante que se confronta com o sentido que o real nos dá em oportunidades difusas e multicolores.

A sua biografia é uma impressão, um gesto de uma genialidade complexa e universal. Foi com ele que atingimos a universalidade dentro de um particular de pouca grandeza, onde sabemos distinguir a palavra, a dúvida e o sonho. Inventou, num mar de aparente solidão, uma nova forma de apresentar as palavras, de desenhar ideias de futuro, construindo uma língua, uma literatura.
Ele somos todos nós. Aqueles que ele inventou nos quotidianos onde tantos seres particulares ganham a sua originalidade, a sua universal humanidade. Se há poeta, se há escritor, se há literatura, ele é tudo isso. É a demonstração de que um país é a sua cultura, a sua língua, as suas pessoas, a sua individualidade. Luis Ruffato olhou para esta universalidade e deu-nos um livro que seleciona os poemas dos principais heterónimos, sem os enquadrar nesse sentido, antes, organizando a poesia de Fernando Pessoa em temáticas que o permitem compreender. 

Da estranheza da alma, à ideia de renúncia do pensamento, ao sofrimento de cada um, num mundo sem referências, do cansaço como um barco numa praia deserta, às convenções sociais e às sua infelizes consequências nas realidades naturais, o amor que nos desafia belo e inútil, que não se revela numa vida breve. Luiz Ruffato tentou compreender a unidade de Pessoa e entender na sua obra literária o que ele próprio foi.

Descobriu aquilo que torna Pessoa universal, a ligação profunda entre arte e vida, procurando ultrapassar as sombras que nos cercam e encontrar "essa outra coisa linda", que somos nós próprios. Com esta antologia vemos melhor a grande dádiva que Pessoa deu à língua, forma de expressão e renovação de quem com ela quiser nascer. Ainda e sempre a grande função da literatura, inventar mundos, ou a esperança de sobressair sobre esse desamparo da vida, esse tempo longo, de vidas breves, como as nossas.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O 1º modernismo - Alberto Caeiro (I)

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver,
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isso com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da natureza
.
Alberto Caeiro, “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha Biografia.”
Alberto Caeiro, Poemas. (2006). Lisboa: Ática.
Imagem: © Fabien Bravin

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fernando Pessoa - Escritor do Mês

Fernando Pessoa

"["A minha pátria é a língua portuguesa]", escreveu, profeticamente, Fernando Pessoa. O seu génio expressou-se também, inúmeras vezes, em língua inglesa - mas aquele que viria a tornar-se o mais internacional dos escritores portugueses sabia que cada língua tinha a sua cor, a sua luz e a sua música própria, e que a arte da escrita consiste em levar para lá dos limites convencionais os dons expressivos de cada língua. 

A sua primeira originalidade foi essa: a de se entregar ilimitadamente à sua língua, sem complexos de mando nem de escravo. Por isso escreveu sobre o conhecido e o
desconhecido, o alto e o baixo, a estética e o comércio, a política e a astrologia. Criou uma constelação de heterónimos e semi-heterónimos - incluindo uma extraordinária Maria José - que lhe permitiriam explorar, visceralmente, as mais diversas possibilidades do ser.

E foi, evidentemente, um poeta inultrapassável - o tempo paralisa-se diante dos seus textos, sempre inscritos numa verdade futura. Semeador de papéis com um único livro publicado em vida (Mensagem), sonhador de impossíveis que jamais se deixou esmagar pela monótona incompreensão do seu tempo, Fernando Pessoa deixou uma obra múltipla e incisiva, que continua a surpreender-nos, a seduzir-nos e, acima de tudo, a desafiar-nos a quebrar as fronteiras do corpo e da alma, da vida e do sonho, da reflexão e dos sentimentos. Uma obra absolutamente universal".

Inês Pedrosa, Sobre Pessoa, Casa Fernando Pessoa

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Fernando ...

“I know not what tomorrow will bring” (Fernando Pessoa  – last words)

Lisboa ficou como um pano de fundo, de onde ele criou universos, na modernidade dos significados que ele deu às palavras, dos sentidos diversos que a vida contemporânea pode ser. A estátua que tantos turistas visitam é um ícone pop, uma lembrança fugaz, não bebida na pele, não adormecida na essência da fragmentação que o mundo contemporâneo se tornou. 

A modernidade fez-nos perder uma ideia segura do mundo, uma possibilidade de construir linhas, capazes de nos devolver uma segurança, uma ideia de futuro. Explodiram ideias, conceitos, crentes, descrentes, todas as formas razoáveis e indignas de sermos algo que nos chame de humanidade. Vestimos hábitos para os quais não estávamos habilitados, desistimos do que melhor sabíamos e de cada vez que sorrimos na multidão, uma abordagem funcionária fez-nos esconder dentro do mais puro de nós. Vestimos máscaras que não nos deram vida e quando reparámos estávamos velhos e consolados de indiferença. Somos pois testemunhas de uma fragmentação de eus, e vivemos entre o excesso de escolhas, mal formuladas, dedicadas em discursos de nevoeiro por iluminados de ocasião e um vazio. 

Perdemos a voz dos deuses e ficámos estilhaçados, convencidos que em cada eu construíamos um mundo de desejos e de sucessos. Ao debatermos a unidade perdemo-la, como crianças, expulsas da magia da fantasia. É esta uma das grandes forças de Fernando Pessoa. A sua heteronímia levanta de um modo único a luta entre esse interior que se perdeu em espectáculos de excesso, de horizontes de vazio. Na fractura interior que a contemporaneidade trouxe, os eus são essa tentativa de alcançar uma unidade que não conseguimos ter, e por isso ele tanto nos disse sobre essa dificuldade de respirar, de existir no “intervalo que há entre mim e mim”.  

Todos os seus heterónimos são essa forma criativa e humana de chegar ao universo e perante ele obter uma resposta. A sua poesia é a busca de uma metafísica, capaz de fazer pensar quais as formas possíveis de existir, que particulares somos. Em Alberto Caeiro «Falaram-me os homens em humanidade. Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade. Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si. Cada um separado do outro por um espaço sem homens.», em Ricardo Reis «Da verdade não quero mais que a vida; que os deuses dão vida e não verdade, nem talvez saibam qual a verdade.”, em Álvaro de Campos «És importante para ti porque só tu és importante para ti. E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?”, notamos essa necessidade de expressão individual, de pluralidade de possibilidades. 

Pessoa representa esse encontro para analisar e pensar a modernidade no homem. Pensarão os turistas e o país pop e o outro, feito de modos funcionários, o que significa este homem na cultura universal, além de fotografias e sorrisos de plástico momentâneos? Pessoa é ainda e sempre a grandeza de quem viu que o pensamento é o motor maior de qualquer inteligência feita sociedade, ou conjunto de pessoas.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Fernando - (Os Heterónimos) : Bernardo Soares

Onde está Deus, mesmo que não exista?
Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.

Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de Verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...

Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, os perigos que penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no Inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas... 

Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho — com vontade de lhes dar beijos — os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases — fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! ...

Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De um pai sei o nome; disseram -me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a quem possa amar... Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma...

Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que dormia...

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. p. 289.

(Imagem - Via Grupo de divulgação da poesia de Fernando Pessoa).

terça-feira, 19 de maio de 2015

Fernando - Os Heterónimos (Ricardo Reis)

Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos
.
1-11-1930
 Ricardo Reis, Odes
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor). Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Fernando - Os Heterónimos (Alberto Caeiro)


Esta é a história do meu Menino Jesus. 
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira 
Que tudo quanto os filósofos pensam 
E tudo quanto as religiões ensinam ? Alberto Caeiro

terça-feira, 12 de maio de 2015

Fernando - Os Heterónimos (Álvaro Campos)

Fernando - Heterónimos - (Ricardo Reis)

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

A noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos.
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve)
A negra ida ao sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem.

Ricardo Reis, Odes


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Fernando - Os heterónimos (Bernardo Soares)

Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso. 

O Universo, a Vida - seja isso real ou ilusão - é de todos, todos podem ver o que eu vejo, e possuir o que eu possuo - ou, pelo menos, pode conceber-se vendo-o e possuindo e isso é. 

Mas o que eu sonho ninguém pode ver senão eu, ninguém a não ser eu possuir. E se do mundo exterior o meu vê-lo difere de como outros o vêem, isso vem de que do sonho meu eu ponho em vê-lo, sem querer, do que do sonho meu se cola a meus olhos e ouvidos.

Livro do Desassossego
Imagem, © – James Tovey, La Grande Arche.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Encontrar Pessoa - Visita de estudo

Entro na porta que foi a tua casa. Afinal, sempre tiveste uma casa e não esses quartos medíocres, pequenos, alagados de pequenez e solidão, para ruas de pó e formalidade. Fico contente, por essa companhia em que escreveste linhas sem fim, já na companhia de uma mãe, de uma família, se assim o podemos dizer. Entro pela tua porta e vejo essa escada velha, de madeira solene, com que os prédios antigos encantavam em passos secos os seus moradores. 

Revejo-te aprumado nessa entrada, após uma curta e maçada jornada num qualquer escritório. Vejo-te como que a encaminhar passos de descanso, por essa porta branca solícita de tantos versos, de ideias infinitas sobre o que sonhamos, o que desejamos para um Universo de finitude. Imagino-te nesse compartimento de todas as possibilidades, e, nas noites dançantes de aguardente e inspiração, para melhor percebermos os instantes que nascemos para um nome que nem sempre visitamos. 

Vejo-te debruçado sobre a janela e a corresponder a essa sabedoria de infância, que desconhece a morte e que se alegra nos instantes mais puros, nas graças mais desajeitadas de formalismo e por isso em instantes perfeitos de sorrisos e camaradagem. Imagino-te em passos caminhantes a outros espaços da casa, onde hoje te vemos como um elemento entre crianças e a tu mãe, sempre com essa dedicação de criança em sonhos. Não sei se és capaz de o perceber, mas de algum modo, os materiais revelam as sombras imanentes dos que absorveram a respiração, a tua e do que nos soubeste dizer. Precisamos de verdadeira inspiração para encontrar as tuas múltiplas vozes. 

A tua escrita é a maior forma de amor a uma língua e a uma ideia, de fazer essa navegação e descobrir todos os universos, os nomes de que somos feitos. Não sei se ao visitar a tua casa a respiração ultrapassou a imaginação. Se assim for, tal não é muito importante, pois como tu dizias, também muitas vezes me parece, que  o mais importante “é ler com a imaginação”. Obrigado Fernando. Sempre preferi os nomes próprios. Eles dizem-nos muito mais sobre esse ser que em cada um vive. Um dia vou ter saudades tuas.

(Um texto imaginado nos passos da Casa Fernando Pessoa, naquela que foi a sua última casa e onde tentámos descobrir com a ajuda preciosa do guia da Instituição, as sombras de um universo sem fim, as palavra e a vida de Pessoa).

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Poesia de Alberto Caeiro - livro da semana

Título: Poesia de Alberto Caeiro 
Autor: Fernando Pessoa  
Edição: 1ªd. 
Páginas: 293
Editor: Assírio&Alvim
ISBN: 978-972-37-0654-3
CDU:  821.134.3-1"19"
Sinopse: 

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Fernando Pessoa, “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Escritor do mês - Fernando Pessoa



Quem mais do que ele era ele? Foi o que se perdeu em si mesmo, por uns copos a mais ou pelas alucinações opiáceas muito em voga naquela altura? Fosse como fosse ou porque fosse, para além do poeta imergiu o filósofo da identidade perdida que por acaso até era a sua. Nota-se em toda a obra uma profunda angústia depressiva, uma ruptura do Eu com o mundo exterior e o inevitável refúgio num mundo alucinatoriamente centrado em si mesmo. Todos os heterónimos reforçam a ideia do isolamento, num universo humano de incompreensão e vazio de atitudes reflexivas.    
 
Por breves instantes, talvez mais em Álvaro de Campos, nota-se um verdadeiro esforço para valorizar o Outro «És importante para ti porque só tu és importante para ti. E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?». Mas mesmo aqui a sua escrita é decerto uma admoestação ao próprio e aos seus súbitos delírios de insatisfação. Em Alberto Caeiro, a mesma descrença nos outros continua presente «Falaram-me os homens em humanidade. Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade. Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si. Cada um separado do outro por um espaço sem homens.» Ricardo Reis revela um Pessoa em constante combate com Deus e com a ideia da existência de um ser superior. Para «calar» esse Deus, desenrola a sua vasta cultura clássica, criando uma tal Lídia para o guiar no percurso dessa revolta «Da verdade não quero mais que a vida; que os deuses dão vida e não verdade, nem talvez saibam qual a verdade.» Bernardo Soares é na minha perspectiva, o expoente da desilusão de Pessoa em relação tudo e todos «A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão é a necessidade da alma de ser exterior.
 
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos  que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.» 

 
Fernando Pessoa foi e continua a ser o paradigma da identidade perdida. Muitos psicólogos e psiquiatras se debruçaram sobre a sua vasta obra, descortinando nos poemas, uma possível esquizofrenia do poeta ou a tão famosa hoje, doença bipolar. Muitos chamam-lhe génio, outros consideram-no o maior poeta português de todos os tempos e ainda outros nunca o leram. Gostando ou não da sua obra, a verdade é que hoje, ela é, mais actual do que nunca. Leva-nos a reflectir sobre o individualismo que caracteriza a nossa sociedade, o consumismo versus o despojamento, os centros comerciais versus o contacto com a natureza, a legitimidade das acções versus os valores éticos das mesmas e o Eu versus os Outros.

(Um texto de outras vidas, do tempo em que se discutia Literatura em encontros / pontos de encontros na Almeida Garrett e de uma memória - a da Profª Ana Cristina Oliveira).

domingo, 30 de novembro de 2014

Pessoa - uma breve biografia


"Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes« (1)

O apelido de Pessoa remete-nos para o teatro grego, as máscaras com que cada um enfrentava as dificuldades, os desastres a que não cediam de ultrapassar. Pessoa transporta-nos para essa noção de diversidade, de multiplicidade do individual. O poeta de que aqui falamos e que hoje se evoca o seu desaparecimento físico, há justamente setenta e nove anos, é uma figura marcante da cultura europeia e mundial. Representa a procura para num mundo coletivo, exprimir a voz do indivíduo, do seu olhar e das suas possibilidades.

Pessoa foi influenciado por um conjunto de circunstâncias, as suas, as do seu tempo, que lhe criou um ambiente histórico onde já se determinavam as dificuldades do Portugal Contemporâneo. A saber, O Ultimatum inglês, a decadência da monarquia, as dificuldades de afirmação da República, a instabilidade política e social, os acontecimentos trágicos à volta de Sidónio Pais. A confirmação de um regime onde a dignidade do ser não existia assegurou-lhe um Portugal cinzento, sem visão, nem futuro. Pessoa soube criar uma poética que respondia à multiplicidade individual, oferendo-nos a dimensão moderna, universal do homem como medida de realização de um todo. Afinal o que pode ser a vida?

Neste caminho em contínua aprendizagem que dimensão nos pode transportar para uma felicidade mais próxima da respiração de cada um? Um trajeto em que apenas o visível pelos sentidos se pode apreender, acima de qualquer ideia moral, como em Alberto Caeiro, ou o modernismo tecnológico do mundo de Álvaro Campos, ou os constantes valores culturais da memória de Ricardo Reis? Afinal não são os heterónimos diferentes possibilidades de olhar para a afirmação do género humano nessa aventura que é viver?

Em todo este complexo modo de ser, Pessoa afirmou-nos que é pela força das ideias que o País poderá ter a sua única possibilidade de se afirmar no mundo desenvolvido. A Mensagem, mais do que um relato de feitos do passado transporta-nos para essa ideia de um Quinto Império em que Portugal para ser autónomo, diferente, melhor, só o pode concretizar se for autêntico, se souber assumir a sua verdadeira dimensão.

Pessoa afirmou-se modernista pela sua tentativa de transformar o futuro do País pelas ideias, pela arte, pela cultura, no sentido de cada indivíduo poder participar na construção de uma comunidade. Quantos que governaram este País, inclusivé no presente, se esqueceram deste simples princípio? Pessoa é um criador universal, porque soube criar as diversas possibilidades do indivíduo, a sua multiplicidade onde se encontram inscritos, os valores humanos. Afinal o que poderemos ser em cada dia, reconstruindo o futuro quotidianamente, é uma das suas grandes ideias. Partindo de uma experiência individual, as suas palavras reforçam a nossa humanidade, como valor universal.

Só os homens geniais conseguem acima da espuma dos dias, verificar o movimento mais profundo e compreender como poderemos ser mais dignos como País, nas palavras de Almada. Existir é pouco para uma dimensão mais consciente da vida. A genialidade de Pessoa é essa. A de revelar a necessidade de quebrar a incerteza que reina nestas praias em sucessivas gerações. Mariano Deida afirmou, há alguns anos, que o poeta de Autopsicografia inventou a própria literatura, no sentido não de ter criado palavras novas, mas de nos revelar dimensões novas do sentir/sentido humano.  

O autor de Guardador de Rebanhos ou de Mensagem ou de Tabacaria é o maior dos nossos poetas, o filósofo das partidas esquecidas e dos sonhos de conquista do infinito universo. Chamou-se Pessoa, Fernando Pessoa, andou por aqui durante os milénios dos seus sonhos e faz hoje setenta e nove anos que adormeceu. Continua a interrogar o real tão feito de aparentes compromissos de verdade e imaginação.

(1) Ricardo ReisOdes
Imagem, in f.Pessoa.com

O mistério das coisas

O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os
homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.

As coisas são o único sentido oculto das coisas.

Alberto Caeiro, "Poema XXXIX", "Guardador de Rebanhos", in Poemas de Alberto Caeiro.