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segunda-feira, 27 de março de 2017

Dia Mundial do Teatro

O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.


O actor estala como sal queimado. (...)
Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor. (...)


O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.


Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina. (...)

O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

Herberto Helder, in Poesia Completa.

Imagem - Mário Viegas (numa peça de Samuel Beckett)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Uma história de amor - Pedro e Inês

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia

dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

 Nuno Júdice, ‘Pedro, lembrando Inês’

(Foi a nossa história de Romeu e Julieta, mas teve contornos mais simbólicos, porque envolveu uma dinastia, uma casa real e uma ideia de País. Uma lembrança para este dia dos Namorados 2017).

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Luís Vaz de Camões

No Mundo quis o Tempo que se achasse
«No Mundo quis o Tempo que se achasse
O bem que por acerto ou sorte vinha;
E, por experimentar que dita tinha,
Quis que a Fortuna em mim se experimentasse.
Mas por que meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
Por ver se se mudava a sorte dura;
A vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado,
Já sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho já que não a tenho».
Luís Vaz de Camões,
No Mundo quis que o Tempo que se Achasse, in Antologia Poética.

domingo, 1 de maio de 2016

No mês de Maio...

"No mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados
Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados. 
 Manuel Alegre, "Nós voltaremos sempre em Maio"
Imagem, in http://takaclip.tumblr.com/ 


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

fevereiro


Cada dia é uma perna.
E fevereiro é esse mês.
que perdeu duas ou três:
ou ficou com vinte e nove
ou vinte e oito, bem vês.
Mesmo com pernas a menos
já corre o bom fecereiro
p'rà casa da Primavera,
que quer ser o mês primeiro
a chegar a essa meta.
E não é, mas fica perto:
pois tanta é a chuva e o granizo
que ele às vezes escorrega
em lameiros e colinas.
E o prémio de consolação?
É a festa do Carnaval
que quase sempre lhe calha
là p'rò final da corrida.
E é ver o bom fevereiro,
mascarado, já festeiro,
a solatar vivas à vida.

                                       João Pedro Mésseder, O livro dos meses 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A iniciar Outubro

ESPÍRITO DO OUTONO

Terei de falar do espírito do outono
agora que setembro
chegou ao fim. (Espírito
é palavra suspeita: não há
hipócrita que não se abrigue
à sua sombra.) Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?

Eugénio de Andrade, In "O sal da língua"

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Hélia Correia - Prémio Camões 2015

Essa beleza q577ae868adf5f0998c8d1dd6e969c72f-ldue era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, e levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rosto extraordinário. Sim , a hora, 
Dois séculos atrás, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.
Hélia Correia, A terceira miséria. Relógio D'Água. 2012
Imagem: © Julie de Waroquier.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

junho

junho tem ar de festa
mesmo que festa não haja.
Não se sabe bem porquê,
se todos ainda trabalham.
Talvez festa de ser véspera
de chegar, em junho, o Verão
e com ele um ,
um comboio, um avião,
ou simplesmente umas pernas
de andarilho sem receio,
que nos levem com os amigos
a um lugar de eleição
que se guarde para sempre
no baú do coração.

João Pedro Mésseder, O Livro dos meses. Lápis de Memórias. 2012.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Fernando - (Os Heterónimos) : Bernardo Soares

Onde está Deus, mesmo que não exista?
Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.

Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de Verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...

Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, os perigos que penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no Inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas... 

Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho — com vontade de lhes dar beijos — os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases — fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! ...

Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De um pai sei o nome; disseram -me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a quem possa amar... Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma...

Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que dormia...

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. p. 289.

(Imagem - Via Grupo de divulgação da poesia de Fernando Pessoa).

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Fernando - Os heterónimos (Bernardo Soares)

Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso. 

O Universo, a Vida - seja isso real ou ilusão - é de todos, todos podem ver o que eu vejo, e possuir o que eu possuo - ou, pelo menos, pode conceber-se vendo-o e possuindo e isso é. 

Mas o que eu sonho ninguém pode ver senão eu, ninguém a não ser eu possuir. E se do mundo exterior o meu vê-lo difere de como outros o vêem, isso vem de que do sonho meu eu ponho em vê-lo, sem querer, do que do sonho meu se cola a meus olhos e ouvidos.

Livro do Desassossego
Imagem, © – James Tovey, La Grande Arche.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Fernando - Os heterónimos (Ricardo Reis)

Segue o Teu Destino

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias. 


A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nos queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós - próprios. 

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses. 

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses. 


Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam. 


Ricardo Reis, in "Odes"  
Imagem, © – Monica Elise Vestre, Art by Nature.

domingo, 3 de maio de 2015

Dia da Mãe

O sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.

Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas. 
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.  

E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo 
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães. (...)   

E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.   


   Herberto Helder, "Fonte", in A Colher na Boca, 1961
Imagem, Angela MorganMaternitat

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Poesia nas escolas - porque precisamos dela?


Five Reasons Why We Need Poetry in Schools


Reason #1: Poetry helps us know each other and build community.

Reason #2: When read aloud, poetry is rhythm and music and sounds and beats.

Reason #3: Poetry opens venues for speaking and listening, much neglected domains of a robust English Language Arts curriculum.

Reason #4: Poetry has space for English Language Learners.

Reason #5: Poetry builds resilience in kids and adults; it fosters Social and Emotional Learning. 

More ideas in this link. Just here.

 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

No mês da Poesia


Nos Estados Unidos da América, o mês de abril celebra-se como o mês da poesia. Existe um conjunto de recursos em língua inglesa sobre a poesia. É possível encontrar um conjunto de recursos de grande significado:

  • o valor da poesia como recurso pedagógico;
  • planos de atividades sobre formas der exploração da poesia;
  • o valor civilizacional da poesia;
  • bancos de poemas sobre diferentes, mas essenciais poetas, tais como Walt Whitman, Yeats, Oscar Wilde ou Keats. 
Este recurso educativo está disponível, aqui.

terça-feira, 7 de abril de 2015

abril

Celebra-se o vinte e cinco
de Abril de setenta e quatro,
pois Abril é revolução
no ar, sim, como no chão,
onde alguém desenha a giz
a silhueta futura (...)

Abril é também promessa
de tesouros no Estio,
que está longe  (ainda é frio).
águas mil por certo vêm,
mas outros dias já trazem
uma luz azul também.

E este Abril é ainda
o mês em que os livros voam
da minha mão para a rua,
da tua p'rá minha mão,
e das mãos voam p'rós olhos
e dos olhos para a mente
e daí p'ró coração.

João Pedro Mésseder, "Abril", in O Livro dos Meses 
Imagem, Flor de Primavera, Jettie Rosenboon

quarta-feira, 25 de março de 2015

Herberto

I do not Know much about gods, but I think that the river
Is a strong brown god
(…)
What we call the begining is the end. (T. S. Elliot, Four Quartets)

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar, que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se é esse o seu tempo, quando havia ele de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo esteja real e tudo esteja certo;
E porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. (…)
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências,
O que for, quando for, é o que será que é.

(“Poemas Inconjuntos”. in Poemas de Alberto Caeiro. Lisboa: Ática, 1946.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
«Tríptico». In A Colher na Boca, 1961.


Herberto morreu. Eugénio sobre Torga tinha o consolo que tudo é efémero, só a morte é imortal, pois não poupou o mais chegado aos anjos, esse cântico de perfeição que são as sonatas de Mozart. Quando um poeta morre diz-se ficam as palavras. Em Herberto mais ainda, pois ele construiu na solidão de cada momento, as faces do poema. Esmerou-se como um carpinteiro por desenhar as palavras que a sua simbologia criou. Ergueu uma obra para o mundo, entregou-a sem explicações, sem manifestos, sem prémios, na reclusão da torre da palavra. Herberto tinha na reclusão a voz de um poeta, que se afirma pelas suas palavras, pelo valor que aquelas têm, como víamos em Baudelaire, sempre nessa atitude modernista, de fugir ao mundo, para o apreender. 

Herberto trouxe uma poesia, onde as palavras emergem sobre nós, como oráculos de mistério, sem um tempo definido, onde se advinham rituais de tempo mágico, parecendo conduzir-nos para o espaço sagrado de uma mitologia. Herberto recuperou nas suas palavras a sacralidade perdida num mundo secularizado, dando uma resposta à velha dúvida de Nietzsche, da perda de Deus e da dor antiga. Os rios, o corpo são formas vivas de um fogo que persiste, nos espaços obscuros e de silêncio onde emergimos, para um real nem sempre possível de integrar, pois somos feitos, na feliz expressão de António Lobo Antunes, “de ranho e de poeira cósmica”. 

Pessoa e Herberto são as maiores figuras da poesia e da literatura portuguesa do século XX. Pessoa, na dimensão única de Caeiro vive a natureza, mas supera-a em si em cada instante, absorve o olhar brilhante do sol de cada momento, sabendo-o que só o que existe é real. O real dá-lhe consistência e justificação. Herberto ainda procura um valor sagrado, uma construção de milagres, o real mais belo para a nossa respiração. Herberto procura-se na noite vasta, no tempo imemorial, onde os pensamentos são graças permanentes ouvidas em cada um de nós. 

Em Herberto há uma labuta humana, pelas ideias que hão-de chegar ao outro, ao que procuramos. Em Herberto há uma emoção por esse coração que naufraga num céu infinito, das crianças que em cada esperança se renovam, nas casas, “ruas de flores” de onde imaginamos o mundo. Há dentro de cada um de nós a flor, o fruto, a divindade, entre a racionalidade e o sagrado mais breve, as flores que nos procuram em cada um de nós. São duas formas infinitas, porque humanas de conceber o homem e os seus anseios mais secretos, o fogo das palavras eternas. São duas formas gloriosas de modernidade e de construir a língua e as palavras, essas formas breves de eternidade.

(Perto da interrupção letiva, a morte de um poema vivo, a poesia que devora o real, Herberto Helder).