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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - Curso intensivo de jardinagem (IIA)

Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós.


Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua agora,
encontraram a porta certa.


Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.


Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como as mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.


Escreve em vez de costurares.
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura os joelhos,
os cotovelos e as canelas
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.


Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.


Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.


Margarida Ferra. (2012). "Escreve sempre que precisares", in Sorte de Principiante. Etc.

A palavra e o mundo - Curso intensivo de jardinagem (II)

"Não podemos escrever sem a força do corpo." (Marguerite Duras)

 Margarida Ferra publicou há já alguns anos um livro de poesia, Curso intensivo de jardinagem que nos introduz numa temática que é a chave temática escolhida este ano, a palavra e o mundo e neste caso, como em outros, a viagem pela cidade. Nesta primeira abordagem à cidade a poesia de Margarida Ferra revela-nos como o quotidiano, os objetos são formas de criação de imagens, de referência na memória.

O livro divide-se em quatro partes e há nele uma constância. A ideia de que o corpo é uma forma de conhecimento. Nosso e do que nos rodeia. E igualmente a ligação entre a jardinagem e o acto de escrever poesia. Ainda com esta ligação em mente deparamos com a tentativa de uma prática, de uma aprendizagem feita de energia, de brevidade pela observação, de rapidez na descrição e de utilização de recursos estilísticos mínimos. A poesia que encontramos explora locais, espaços, vivências, desencontros. Ela apresenta-se como uma exploração de procura que aposta na simplicidade do que encontra.

A epígrafe de entrada do livro de Marguerite Duras envolve-nos nessa observação que carece de uma energia. A que importa para as plantas e também para os versos, pois a beleza que se quer redescobrir e ver no quotidiano exige um esforço, uma atenção. Curso intensivo de jardinagem é um livro de poesia sobre o essencial, sobre o que vemos, sobre o que escolhemos ver. Acrescenta de uma forma muito luminosa imagens fotográficas dessa exploração do quotidiano.

 O sentido do corpo para a construção da poesia é verificável pela utilização da visão, ou do olfacto, ou ainda pelo som, ou pelo paladar. Existem muitos versos a confirmar esta forma de exploração do quotidiano. É na primeira parte do livro que este tipo de registo mais se apresenta. O quotidiano e os seus diversos gestos. Na segunda parte é a casa que é o centro do olhar da poesia. Lugar de acolhimento, mas também de desconforto. Há no entanto a procura de uma ligação entre os espaços numa observação dominada pela sensibilidade.

Nas últimas duas partes do livro os poemas caracterizam-se por serem breves. Ainda encontramos o corpo que percorre os espaços, que explora e observa em pequenas observações e nos dá ainda com um sentido de grande sensibilidade a sua transformação na poesia, na palavra, na capacidade de criar um corpo de memória. 
 
Imagem: Copyright - 半夏生の朝に - あたりまえの暮らしを護っていかれるのだろうか。

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A palavra e o mundo - Curso intensivo de jardinagem

Percorria ao anoitecer os jardins
da cidade à procura das flores
oficiais - sobem amparadas
e perfumam com a memória
do chá as ruas irregulares.
Levava uma tesoura de unhas,
insuficiente e desnecessária porque
não colhia nada que fosse vivo.
Restavam-me frases livres, 
páginas dobradas, cadeiras desiguais
e os pratos vazios deixados
aos gatos.
O primeiro poema encontrei-o
numa dessas buscas
debaixo da árvore maior,
no ferro que sustenta a copa,
preso com uma mola da roupa.

Margarida Ferra. (2010). "Nome comum: Jasmim-dos-Poetas", in Curso Intensivo de Jardinagem. & Etc.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Comunidade de leitores

Apaixonei-me todas as vezes
e ainda assim foram insuficientes
para a idade e dedos que tenho.

Conduzo a alta velocidade,
ignorante dos radares.
Foram pelo menos quinze,
os túneis até hoje.

Escapei ilesa. Frases mal pronunciadas,
suspiros demasiado presentes,
uma t-shirt usada em excesso
em dias de sono longe,
memórias inesperadas,
longas páginas de prosa,
poesia, jornalismo e catálogos
de venda postal
têm-me salvo com frequência
do abismo.

Ensinavas-me a viver longe e
podia acreditar em ti,
se me chamasses. (1)

Ontem, dia três de dezembro na Biblioteca o grupo que constitui a comunidade de leitores, promovida pela professora Filipa Barreto em colaboração com um jornalista do JL, e os alunos de uma turma do 11º ano de Literatura Portuguesa conversaram sobre poesia e sobre as palavras de Margarida Ferra.

(1) - Margarida Ferra. "3".Sorte de principiante, ETC, 2000.