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sexta-feira, 10 de março de 2017

A palavra e o mundo - Açores, o segredo das ilhas (II)

Raul Brandão escreveu um livro inesquecível sobre as Ilhas, a da Madeira e essencialmente sobre o arquipélago dos Açores. A descrição do azul, as pessoas e um território fez de As ilhas desconhecidas uma referência na Literatura de viagens e nas narrativas sobre as Ilhas Atlânticas. 

João de Melo oferece-nos um livro próximo, mas muito diferente sobre a magia única das nove ilhas que compõem essa unidade habitado pelo espírito. Açores, o segredo das Ilhas é uma narrativa de viagem a nove ilhas, a descoberta de uma paisagem natural acima das palavras, desse nascimento telúrico e das actividades humanas. Mas é sobretudo um livro à procura do fundamento da terra no seio das suas formas. Da sua atmosfera de vento e nuvens, fogo e água, a terra nascida no momento inicial dos tempos.

Açores, o segredo das Ilhas é ainda uma visita onírica a nove ilhas e a descoberta nelas do fundamento inicial do mundo, a janela aberta do Cosmos. Cada Ilha do "mais belo mar do mundo" é descrita pela sua substância vulcânica e pelo modo como se definiu nesse azul imenso. "Corvo, a cornucópia do mar", Flores, Ilha de todas as ilhas", "Faial, onde estão as faias", "Pico, a montanha mágica", "São Jorge, o sáurio que dorme", "Graciosa, sentada a ver o mar", "Terceira, o mundo todo em volta", "São Miguel, uma doce melancolia" e "Santa Maria, o ninho do gurajau", são visitas a um arquipélago feito de substância de deuses do espírito, como o definiu António Tabucchi. 

Existem livros que são uma experiência sensorial, que nos fazem experimentar a nossa condição de vida, a nossa mortalidade, a descoberta dos nossos continentes interiores e a nostalgia de rios a correr, a descoberta do visível, a pura felicidade de ver o mundo acabado de nascer. Açores, o segredo das Ilhas é um livro de 2000 reeditado num formato mais acessível e de uma beleza indescritível.

Só alguém que conhece as Ilhas por nascimento ou por um amor imenso desses pedaços de sonhos no meio do mar, plenas "baleias azuis" as pode compreender e descrever como o faz João de Melo. Se As ilhas desconhecidas é um livro quase definitivo pela linguagem, a sua capacidade de compreender o  espaço e descrever as cores, Açores, o segredo das Ilhas é um presente de palavras, para essa missão impossível de dar conhecer os limites azuis de um sonho e de uma beleza rara. Um dos mais belos livros de viagens que se podem ler. Açores, o segredo das Ilhas é um livro que está disponível na Biblioteca para requisição domiciliária.

terça-feira, 7 de março de 2017

A palavra e o mundo - Açores, o segredo das ilhas (I)

De que falamos nós, quando falamos das ilhas?
Creio que de formas. Das belas estranhas formas que  elas nos sugerem ao olhar. Se as vemos no mapa, não são mais do que corpos fixos, plasmados à superfície das águas, sem nenhum fogo na alma. Apenas corpos terrestres em contínua permanência nas voltas, volutas e luxúrias do mar. 

Porém, se olharmos de uma ilha para a outra, a perspectiva torna-se outra.  Diferente  da anterior. Diferem os sentimentos da lama; muda-se também a forma de ver as ilhas. O que dantes nelas era difuso e longínquo, agora como que se ilumina sobre a linha inesperadamente nítida da costa marítima. As cores, as coisas  e as luzes da paisagem emergem ao lado das sombras. 

E quando sobre as ilhas se descerra a imensa e húmida cortina que o mar segrega sob a forma de névoa e bruma, para as esconder de quem ali veio para olhar, outros relevos saem do encoberto para se acenderem no dia.  Então sim, passam a ser uma visão revelada, aparição que se configura de outro modo nos nossos sentidos. As ilhas ganham um rosto, e esse rosto uma expressão. Os olhos enchem-se de um brilho maravilhado. Tornam-se coloridas e amplas de luz as paisagens. E todos nós passamos do segredo misterioso ao conhecimento amado das ilhas.