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sexta-feira, 16 de junho de 2017

A palavra e o mundo - estender os sonhos (IV)

Estou sentada em cima da minha mochila, no centro de um vagão cheio, e preciso de te ajudar, meu Deus. (...)
Estou sentada em cima da minha mochila, o vagão trepida, as crianças dormem e os velhos velam,  e eu vou no transporte e penso que tenho de te ajudar, meu Deus. Tu não tens forças para nos socorrer, por isso eu preciso de vir em teu socorro. Porque tu estás reduzido a tão pouco, e não podes valer a todos, então eu preciso de te dar as minhas forças. Precisas de ajuda, meu Deus, porque estás ferido e exangue. Precisas que eu trate de ti, que te vele, que te dê um pouco do calor que guardo em mim, dentro das camisolas de lã. Que eu guarde este calor por ti, dentro de mim.

Eu queria ser o coração pensante dos barracões, meu Deus, porque todos os outros estavam tão ocupados, sempre mais atarefados do que eu. Porque os outros tinham filhos pequenos e os pais a morrerem, e estavam terrivelmente assustados. Mas eu não tinha medo, podia pensar por eles. Podia levar os pensamentos deles até ti, meu Deus, como um correio que não abrisse as cartas para as censurar. Queria ser o coração pensante, quando os outros não tinham tempo para pensar, à procura de comida, agasalho e notícias. E queria ajudar-te a pensar com eles, pensar os pensamentos deles.

Eu ajoelhava em frente ao urzal, meu Deus, o urzal atrás do arame farpado. E tu estavas ali, pobre, atrás do arame farpado. Os raios de sol nas urzes, na água gelada, atrás do arame farpado.
Deixa-me agora ser o coração do vagão, meu Deus. 
Estão demasiado cansados, mal conseguem falar. Mas se eu levar o meu pensamento pela noite fora, toda a viagem de comboio, até ao fim, é como se guardasse um pouco de calor, intacto, por nós todos. Deixa-me guardar o resto do pensamento. Mesmo  a tremer, mesmo a cair de cansaço ainda hei-de conseguir um pouco de força para te amparar. (...)

Eu aceito tudo , meu Deus. Continuo a ajoelhar, e ajoelharei no vagão e no campo, como ajoelhei em frente ao urzal. Se eu não te ajudar, meu Deus, quem te levará até à morada da morte?
Espreito pela frincha, o ar entra, tudo está morto. Montanhas e florestas.
Tenho tudo dentro de mim, mesmo quando é tão difícil.

Partimos de Westerbork há dois dias. Como se a viagem durasse anos de vida. Pode-se envelhecer vidas inteiras num vagão, durante uma noite. Todos nós, mesmo as crianças, somos agora muito velhos. Com mais velhice do que cabe numa vida. Amanhã chegaremos ao campos, e ninguém sabe o que acontecerá. Correm rumores horríveis. mas seja o que for que nos espera, meu Deus, eu aceito. Mesmo na morada da morte te ajudarei.

Olho pela frincha. Lá em cima, a Ursa Maior, clara, nítida, e fria. Que nos acompanha desde a partida. Por que é que as estrelas andam quando eu ando, perguntou-me uma criança em Westerbork, e param quando eu paro?
Uma pequena força dentro de mim. 

As estrelas brilham sobre a neve. Uma claridade branca começa atrás dos montes, o dia nasce do lado para onde o transporte avança. Vejo um caminho, uma casa. Um regato gelado. Luzes ao longe, uma cidade. Uma placa a indicar a direcção. 
Consigo ler a placa: "Leipzig".

E a neve recomeça a cair.
Uma pequena força, meu Deus, dentro de mim.

Pedro Eiras. (2014). "Etty Hillesum", in Bach. Porto: Assírio& Alvim
Imagem - Capa do livro que junta os Diários de Etty Hillesum (1941-43) e que como Anne Frank vivia em Amesterdão; Copyright - persephonebooks

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A palavra e o mundo - estender os sonhos (II)

As longas horas, uma imagem quase imóvel no ecrã.
"O que importa conservar é a diminuição da luz, é o movimento da câmara que corta a luz da janela, no início do plano vemos a janela inteira (...) as mãos que tocam na película. O pequeno candeeiros. Um corte. A penumbra. As mãos quase cegas sobre as imagens. Tactear. (...)

"Há um momento em que a luz lhe salta dos olhos, é muito difícil, mas se pudéssemos conservar essa luz - "
Fique com essa luz, mas não lhe dê nenhuma expressão, a ele. O Leonhardt é uma estátua, um mineral, e as árvores ao fundo são tão importantes como ele, feitas da mesma matéria, e a janela, o trinco da janela, aquela rachada na moldura da janela, não perca isso, é imp0rtante. É importante a mão - "
"Eu sei!"
"É importante a mão na janela, porque o Leonhardt não está a agarrar nada, ele só toca na janela para saber onde ela está, não a vê - mas, bom... Precisa de tocar na madeira para saber. (...)

"Mostrar as coisas. Construir por cima das coisas. Os anjos. Já falámos disso. Tantos anjos nas igrejas, no filme. Um exército de anjos barrocos esculpidos. Não é para comover. Mas filmamos os anjos e eles significam o poder da igreja. O Brecht dizia: o preço das coisas. Dizer quanto custa. É igual. O valor de uso, o valor de troca. Dizer isso num filme. Faz um bocado de mado, não?"

Jogo de luzes. A luz na janela, através das árvores.A tira do caixilho de madeira deita uma vaga sombra sobre Leonhardt. Mas a luz artificial, dentro de casa, ilumina o actor, faz reluzir os cachos da peruca barroca, E Leonhardt faz sombra sobre a moldura da janela. A câmara, num ligeiro contrapicado, mostra breves sombras na cara: o queixo, a testa, e junto dos olhos.
O prelúdio coral.

Como se filma a cegueira? Quem está cego? Quem está mergulhado no mundo e não vê o mundo, não vê o que tem em frente aos olhos e toca uma janela, caixilho, madeira, para saber que há ali realidade, o vidro, as árvores? O tempo destas mãos, destes dedos, agora sem teclado: dedos para sentir o mundo, em vez dos olhos cegos. Dedos para ver. Para enrolar a película, cortar, dedos para colar. Paciência.
O charuto em brasas. Straub continua:
"Resistir."
Continua.

"Resistir é regressar aos documentos, fazer os microfilmes das partituras, das cartas, das dedicatórias, tirar o pó aos arquivos e perceber que esses documentos ainda estão no nosso futuro, ainda nos esperam, que a História não está terminada. Nem sequer o século XVII, o século XVIII, nada terminou, ainda estão a acontecer, ainda - de cada vez que você fotografa uma partitura, e depois o Leonhardt toca um cravo branco, e a voz da Anna Magdalena lê os textos - então, nós percebemos que a vida de Bach ainda está por decidir." 
Paciência, paciência

"E também é isso que eles não nos podem perdoar. Na Europa, na Alemanha. O que aconteceu aconteceu, dizem eles; uma pedra em cima, um túmulo. Para o bem e para o mal, esquecer depressa. Fazer o monumento, esconder as ruínas. Mas resistir é negociar outra vez, voltar a fazer contas: quanto custou. Quanto doeu. Pegar nas peças e voltar a construir a Alemanha. mas construir de outra maneira, com fidelidade. Imperdoável! Resistência e fidelidade. A resistência é a fidelidade..."

Pedro Eiras. (2014). "Jean-Marie Straub e Danièle Huillet", in Bach. Porto: Assírio& Alvim

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A palavra e o mundo - estender os sonhos (I)

Se alguém escreve a biografia de um compositor do século XVIII, escreve a sua própria biografia. Aporta, entreaberta, afinal dá para o nosso próprio quarto. Espelho, anacronismo. pequena ilusão pessoal e humaníssima, desejo infantil de ver, tão forte. E quando se escreve não é para espiar Johann Sebastian compondo, na sua solidão eternamente perdida, mas para interrogar a própria fantasia, a fantasia própria. Interrogar a imaginação. 
Esther Meynell escreve sobre Esther Meynell, sobre a sua paixão por Bach, disfarçada de biografia.

Mas se toda a fantasia é anacrónica, se Anna Magdalena não surpreendeu Johann Sebastian a compor, nem nunca fugiu com lágrimas nos olhos, se uma autora em 1925 só pode imaginar, se interrogamos com as nossas palavras de hoje o passado perdido, nós, cheios de desejo, então vale a pena lutar contra a inverrosimilhança, então é preferível inventar o passado, assumir o fingimento. Não se pode ressuscitar o século XVIII; mas inventa-se o passado conforme o nosso desejo. Por isso, é o nosso desejo que inventamos.  Por iiso, nunca Esther Meynell é mais fiel do que quando descreve a cena mais inversímil: Anna Magdalena surpreendendo Johann Sebastian a compor, fugindo e chorando, como nós choramos hoje. (...)

Não se pode ressuscitar o passado, mas pode-se escrever sobre o passado, no presente; e misturar os tempos. Receber o que resta de antigas vozes, assinaturas, a dobra da linguagem, suas cerimónias e seus implícitos, a surpreendente consciência de que estas pessoas existiram. (...)

Tentação pequena, infantil, de fantasiar: quem seria este violinista, esse organista, aquele viajante? nomes, maledicências, testemunhos, um simples registo: a única marca, a única prova de que alguém viveu, com os seus entusiasmos, medos, as suas crenças, alegrias, esperanças, a sua morte.

Leio estas páginas, sites, fac-similes com os seus olhos extemporâneos; leio, interrogo, comparo, trezentos anos depois. Ignoro tanto sobre estes nomes; mas sei o que eles não souberam: que o mundo deles acabou, tudo quanto parecia eterno se revelou perecível, a ordem da sociedade e das nações mudou mil vezes, o que era proibido tornou-se corrente e o necessário escusado, crime e inocência confundiram-se, mas nessa violenta desordem das coisas - a que devagar nos fomos habituando, quase inconscientemente, no ciclo das gerações - a música do Kantor, irascível, envelhecido e fora de moda, sobreviveu.

Em cada palavra destes documentos setecentistas leio o passado, o presente, e o que persiste do passado no presente, o destino que nenhum setecentista ousou adivinhar. Organizo, recupero: copio os nomes dos mortos para este texto. Penso que essas vidas não estão terminadas, que nada terminou, leio e releio estes nomes, escrevo, reescrevo, interrogo: trezentos anos depois, respondo.

Pedro Eiras. (2014). "Esther Meynell", in Bach. Porto: Assírio& Alvim