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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

António, as palavras e a criação


Foi um dos escritores do mês de outubro na Biblioteca e não há nas letras neste país forma mais lúcida para nos falar dos objetos que nos rodeiam, da vida como circunstância de oportunidades, do esforço para deixarmos um verso a essa peça deslumbrante e misteriosa que é a vida. 

O Público publicou hoje, uma entrevista de António Lobo Antunes que vale a pena ler. O escritor e as suas palavras, numa sabedoria que nos maravilha. Os livros, as suas palavras, o talento ou o esforço para criar os silêncios que preenchem tanto real, tanta forma de amar os dias e o que fazemos. Deixamos em baixo o texto completo da entrevista, hoje publicada no Jornal Público e realizada pela jornalista Isabel Lucas, que nos desdobra o escritor nas suas linhas mais fundas, a que da vida faz ressurgir o criador das palavras.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Livro da Semana - Livro de Crónicas 4


Título: Quarto Livro de Crónicas
Autor: António Lobo Antunes
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: Dom Quixote
ISBN: 978-972-20451-00
CDU: 821.134.3-94"19/20"

Sinopse:
 ""(...) levanta-te do papel com as palavras. Fecha os olhos e elas saem sozinhas. As palavras são notas, repara. Não penses em nada, abandona-te. O mundo inteiro está dentro de ti." (1)

Um livro de crónicas, o quarto em que o escritor de Sôbolos rios que vão ou de Ontem não te vi em Babilónia nos dá a intimidade do seu olhar sobre os objectos na respiração do quotidiano, dos gestos que nos encantam entre a solidão do que tantas vezes somos e do que admiramos no mais pequeno olhar. António oferece-nos com mais nitidez o trabalho artesanal do escritor que do mundo, da humanidade se reconstrói em cada coração para chegar aos olhares mais particulares, à sombra das árvores nas janelas.

Um livro como todos os seus livros entregue ao leitor, às células por onde caminha o fio do mundo e onde com as suas memórias redige as suas palavras, reformula os significados dessas notas que por entre as cotovias do bosque nos parecem tão pouco expressivas para a raridade do momento.

E a comoção que nós somos em tantos, aquelas palavras, aqueles gestos na conquista breve dos dias. António é um poeta não das palavras, mas do real por onde conquista nas sombras e ausências os significados universais do que significa viver, existir e morrer. 

(1)  António Lobo Antunes, "Já escrevi isto amanhã", Quarto Livro de Crónicas

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O diálogo das palavras

"Se queremos escrever livros a sério temos que aspirar ao silêncio e encher os livros de silêncio. O leitor lê as palavras que não estão lá escritas e no entanto estão lá. O que os livros tratam todos é de uma paisagem interior. E é por isso muito difícil falar deles. É sempre a mesma busca.

Primeiro a angústia do homem no tempo e depois uma procura de si, da natureza do homem. Penso que os livros são todos isto. Muitas vezes não é um trabalho de elaboração prévio à escrita. É a própria escrita que vai moldando a estrutura do livro. O livro é feito de palavras. São as palavras que vão moldando. E só assim podem carregar com elas as emoções. E os grandes livros são são serão livros doentes? 

Este livro é triste. É idiota dizer isto, porque quando a mão é feliz, o livro é uma alegria para o leitor. Ou quando falam em intriga. Não há intrigas. As pessoas dizem vou contar uma história. Não vão contar história nenhuma. Os romances maus contam histórias. Os romances bons mostram-nos a nós mesmos. Talvez seja isso. Um mau romance é aquele que conta uma história.

Escrever é uma coisa muito difícil. O ideal é que o livro fosse encontrar um deserto com vozes. Reduzir as coisas à pedra de que somos feitos. D. Manuel José de Melo (autor do século XVII) dizia "o livro trata do que vai escrito nele". É isso. É o livro que manda, não é o autor. 

Temos perguntas, mas não temos respostas. E quando soubermos as respostas, Deus muda as perguntas. A nossa vida é uma pergunta perpétua. Os livros são perguntas que trazem respostas, muitas vezes às perguntas que não fizemos. Goethe dizia que "o não chegar é que faz a nossa grandeza". E como escritor de livros é isso que sou: um principiante". 

Jornal das Nove, SIC Notícias, 2012
Imagens  Copyright
 Good book by Julianna Collet Photography
Escritaria 2012 - Homenagem a António Lobo Antunes (Napoleão Monteiro)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Escritor do mês - António Lobo Antunes

António, é uma artesão das palavras, respira com elas num assombro que nos transmite as condições mais nobres e desoladas da natureza humana. António não escreve histórias. Usa as palavras para respirar os objetos do quotidiano, os gestos que nos deslumbram entre o olhar mais doce e a solidão das horas gastas.

António Lobo Antunes tem-nos dado em múltiplos livros o trabalho artesanal do escritor que do mundo, da humanidade se reconstrói em cada coração para chegar a olhares mais particulares, à sombra "das árvores nas janelas". António escreve livros com fios, por onde as nossas células adivinham caminhos e formas nos próprios passos. Com as suas palavras, as suas notas, reformula os significados das emoções que por entre as cotovias do bosque nos parecem tão pouco expressivas para a raridade, a memória de tempos ali vividos.

António escreve usando a emoção nas palavras, para encontrar nos gestos trabalhados, a conquista breve dos dias. António é um poeta não das palavras, mas do real por onde conquista as sombras e ausências, os significados, os instantes do que significa viver, existir e morrer. António Lobo Antunes nasceu com essa ambição de ser um escritor, para nos dar o ritmo das paisagens respiradas, onde tece as palavras que nos fazem olhar para o interior do que somos. Formou-se em Medicina, especializou-se em psiquiatria, mas descobriu que a a sua maior identidade são os livros.

Daqueles, poderemos destacar os Livros de Crónicas (com destaque obrigatório para o quatro e o cinco), Memórias de elefante (1979), Explicação dos pássaros (1981), O Regresso das caravelas (1988), O Manual dos inquisidores (1996), Exortação aos crocodilos (1999), Não entres tão depressa nessa noite escura (2000), Ontem não te vi em Babilónia (2008) e Sóbolos rios que vão (2010).

A sua obra tem recebido diferentes prémios. Destaque para a France Culture (1996), Donoso (2006), Camões (2007) e Clube Literário do Porto (2008). Em 2012 foi o escritor em destaque na Escritaria, festival literário e cultural da cidade Penafiel. É um dos nomes universais da língua portuguesa e sem dúvida um autor amplamente merecedor de um Nobel na Literatura, embora isso seja pouco relevante. O que nos tem dito e explicado das nossas sombras e alegrias e a sua exposição mundial fazem dele uma das referências culturais em língua portuguesa.