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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Abril


É um mês de muitas possibilidades. É um recomeço a construir um pensamento livre, como uma circunferência de giz a imaginar detalhes de um sonho.  É um mês de promessa, o do Verão a sobrar de dias ainda pouco quentes, de uma luz de cor de mar, ou de céu de montanha. É um mês de livros, a declamar palavras em ruas de chuva, a sonhar com o mês das rosas.
É Abril, um mês a imaginar um pensamento, como aves penduradas no vento. 
Um bom recomeço a todos!
Contemplava a própria vida
na sorte desses instantes
que tanto se assemelham a furtivos lírios
à chegada da noite
mas dizia: um coração é sempre um pássaro
evadido à censura da penumbra

nenhum sofrimento conseguia desfazer
as muitas exaltações que mantinha
e mesmo à beira do abismo
exibia uma facilidade talvez sem razão

quando a arte das chamas se tornou
nas cidades uma ciência ameaçada
percebemos que há muito nos falava
do interior das florestas

José Tolentino Mendonça. (2010). “Furtivos lírios”, in Baldios. Lisboa: Assírio & Alvim.
Imagem (Via Dias com Árvores) -  Vicia latyroides, ou Ervilhaca-miúda: na confluência do rio Sabor e Maçãs (Terra Quente - Trás-os-Montes), um dos que foi um dos últimos rios selvagens da Europa, antes do empreendorismo do regime.

domingo, 1 de maio de 2016

No mês de Maio...

"No mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados
Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados. 
 Manuel Alegre, "Nós voltaremos sempre em Maio"
Imagem, in http://takaclip.tumblr.com/ 


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

fevereiro


Cada dia é uma perna.
E fevereiro é esse mês.
que perdeu duas ou três:
ou ficou com vinte e nove
ou vinte e oito, bem vês.
Mesmo com pernas a menos
já corre o bom fecereiro
p'rà casa da Primavera,
que quer ser o mês primeiro
a chegar a essa meta.
E não é, mas fica perto:
pois tanta é a chuva e o granizo
que ele às vezes escorrega
em lameiros e colinas.
E o prémio de consolação?
É a festa do Carnaval
que quase sempre lhe calha
là p'rò final da corrida.
E é ver o bom fevereiro,
mascarado, já festeiro,
a solatar vivas à vida.

                                       João Pedro Mésseder, O livro dos meses 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A iniciar Outubro

ESPÍRITO DO OUTONO

Terei de falar do espírito do outono
agora que setembro
chegou ao fim. (Espírito
é palavra suspeita: não há
hipócrita que não se abrigue
à sua sombra.) Será
a embriaguez? O vento matinal
arrastando folhas
raparigas canções?
O sopro frio das estrelas?
Será a beleza,
o espírito do outono? Há um limite
para o homem, um limite
para suportar o peso do mundo.
Da beleza, da bárbara
orgulhosa beleza, quem sabe defender-se
sem medo do coração lhe rebentar?

Eugénio de Andrade, In "O sal da língua"

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O Outono

Este é o mês em que as folhas
começam a arder devagar.
Nos ramos ainda, a mudança
- verde, dourado, castanho -
até chegar, tão cruel,
o dia em que a folha se solta
e tomba no chão do Outono.

E a saudade principia,
a melancolia do Verão,
o corpo ainda a beber
a última réstia de sol...

E aquela alegria final
de quem recebe nas mãos
a oferenda das uvas?

João Pedro Méeseder, "Setembro". O livro dos meses. Porto: Lápis de memórias.
Imagem: http://english-idylls.tumblr.com/

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

C'est en septembre...

Les oliviers baissent les bras
Les raisins rougissent du nez
Et le sable est devenu froid
Oh blanc soleil
Maitres baigneurs et saisonniers
Retournent à leurs vrais métiers
Et les santons seront sculptés
Avant Noël

C'est en septembre
Quand les voiliers sont dévoilés
Et que la plage, tremblent sous l'ombre
D'un automne débronzé
C'est en septembre
Que l'on peut vivre pour de vrai

En été mon pays à moi
En été c'est n'importe quoi
Les caravanes le camping-gaz
Au grand soleil
La grande foire aux illusions
Les slips trop courts, les shorts trop longs
Les hollandaises et leurs melons
De cavaillon

C'est en septembre
Quand l'été remet ses souliers
Et que la plage est comme un ventre
Que personne n'a touché
C'est en septembre
Que mon pays peut respirer

Pays de mes jeunes années
Là où mon père est enterré
Mon école était chauffée
Au grand soleil
Au mois de mai, moi je m'en vais
Et je te laisse aux étrangers
Pour aller faire l'étranger moi-même
Sous d'autres ciels

Mais en septembre
Quand je reviens où je suis né
Et que ma plage me reconnaît
Ouvre des bras de fiancée
C'est en septembre
Que je me fais la bonne année

C'est en septembre
Que je m'endors sous l'olivier.



segunda-feira, 1 de junho de 2015

junho

junho tem ar de festa
mesmo que festa não haja.
Não se sabe bem porquê,
se todos ainda trabalham.
Talvez festa de ser véspera
de chegar, em junho, o Verão
e com ele um ,
um comboio, um avião,
ou simplesmente umas pernas
de andarilho sem receio,
que nos levem com os amigos
a um lugar de eleição
que se guarde para sempre
no baú do coração.

João Pedro Mésseder, O Livro dos meses. Lápis de Memórias. 2012.

terça-feira, 7 de abril de 2015

abril

Celebra-se o vinte e cinco
de Abril de setenta e quatro,
pois Abril é revolução
no ar, sim, como no chão,
onde alguém desenha a giz
a silhueta futura (...)

Abril é também promessa
de tesouros no Estio,
que está longe  (ainda é frio).
águas mil por certo vêm,
mas outros dias já trazem
uma luz azul também.

E este Abril é ainda
o mês em que os livros voam
da minha mão para a rua,
da tua p'rá minha mão,
e das mãos voam p'rós olhos
e dos olhos para a mente
e daí p'ró coração.

João Pedro Mésseder, "Abril", in O Livro dos Meses 
Imagem, Flor de Primavera, Jettie Rosenboon

segunda-feira, 2 de março de 2015

Março

Lá vai Março de mansinho
- para ser ele o primeiro -
a percorrer o caminho
que vai de Castelo Frio
- o lugar de onde partiu -
ao Palácio Florentino:
o jardim à beira rio
onde nasce a Primavera.
Mas quando chega, uns casais
já montaram casa e esperam
que lhes nasçam uns meninos.
E Março, que é educado,
cumprimenta os maiorais,
tira o chapéu e lá diz:
- Bom dia, senhores pardais.
Mas logo sente uma chama,
como se em dia de festa:
abre os braços e proclama:
- Já chegou a Primavera!
Da Floresta é este o Dia
e, já agora, da Poesia! 
João Pedro Mésseder. Livro dos Meses
Imagem, ...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

janeiro

Janeiro é um mês, quase inteiro,
de frio, chuva, nevoeiro.
Mas há um sol em Janeiro,
um sol discreto e fagueiro,
em raras manhãs de azul,
que sorri por entre o frio
e acende um pequeno braseiro
no coração mais sombrio.   

João Pedro Mésseder, O livro dos meses 
Imagem, in http://www.jungeunpark.com/main.html

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

dezembro

É um mês de estimação
com um nome que agasalha,
e nem o finíssimo frio,
a neve mais assombrosa
conseguem fazê-lo cair
do alto trono que é seu
no coração dos meninos.

será das luzes, dos sinos,
do torvelinho das ruas
ou do Natal que já cresce
(o que será que acontece?)
por dentro de cada pessoa
e faz com que, neste mês,
se sinta pequena outra vez?

Diga-se o que se disser,
Dezembro é o mês dos meninos
- e isso também agasalha.
Mas é um mês corredio
que cedo, tão cedo acaba;
e logo em Janeiro desaba.

João Pedro Mésseder, "Dezembro", in O Livro dos Meses
Jose M Capitán Del Rio, El Hombre Invierno

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Novembro

Novembro

Que a castanha encarvoada
que me aquece as mãos geladas
me compense deste frio,
desta chuva de  Novembro.

E também que o vinho novo,
que a terra me deu sem pressas,
a garganta me amacie
e o coração me aqueça.

Isto pensa o camponês
lá por meados do mês.

(Enquanto o operário pensa
em certa revolução
que há muitos e muitos anos
neste mês principiou...)

João Pedro Mésseder, O Livro dos Meses
Imagem, Laura Wood, Rain of Autumn

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Outubro ...

Em Outubro, quase tudo
volta enfim ao seu lugar:
os meninos na escola
e os pais a trabalhar.

Chega o poeta à janela,
vê as folhas secas no parque
e escreve uma vez mais
que os pés que pisam as folhas
fazem o chão crepitar.

Mas hoje o poeta tem sorte,
que o céu alto, azul e limpo
convidou para um refresco
 um sol aberto, tão forte
 que parece que o Verão
ainda vai ali à porta.

Amanhã, porém, a chuva
virá, reclamar um lugar
ao céu hesitante do Outono.

E o poeta pensará:
"É tempo de me sentar
com a manta nos joelhos
e ouvir a chuva a chorar
no chão da rua e dos versos.

João Pedro MéssederO Livro dos Meses
Imagem,  Copyright - Norbert Mayer - Autumn Days,

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Celebrar o Outono


"Lá vem o meu pobre Outono
que em troca daquela beleza
de vestir folhas douradas,
um vermelho sem igual
e um castanho especial,
sente a obrigação de abrir
a porta ao vento e à chuva ...

que nesta estação já perderam
a vontade de brincar
e lembram a toda a gente
que é tempo de trabalhar.
Ao Outono resta ainda
a bela consolação
de comer frutos de Verão".

Outono, João Pedro Mésseder, in O Livro dos Meses
Imagem (via http://havidaemmarta.blogspot.com)