domingo, 5 de outubro de 2014

Stay hungry, stay foolish

É um dos ícones do século que passou e será sempre uma figura onde podemos aprender a conjugar a vida, nas suas opções, na sua concretização a simplicidade possível com o minimalismo capaz das maiores possibilidades de expressão criativa. Olhamos para a sua memória e ainda o é, como o vemos, um amigo que soube seduzir-nos pelas suas ideias de simplicidade, como forma elementar de inteligência. Há três anos que a sua capacidade inventiva e a sua procura para conduzir as ideias auma concretização de perfeição se extinguiu.

Vale muito verificar como das suas aventuras tecnológicas reinventou o modo como comunicamos, oferecendo-nos emoção, formas de expressão onde os sonhos individuais se revelaram apenas dependentes da nossa imaginação. Vale muito verificar como nos ensinou que as ideias e a paixão nelas colocada pode realmente transformar universos, conceder possibilidades. Vale muito verificar como em cada ideia, em cada concretização existe uma ideia de cultura e ela é uma forma de ousar riscar o universo das nossas convições.  

Com a sua capcidade criativa os dispositivos eletrónicos foram elementos de expressão de originalidade, formas de ligação com os outros, com a sua emoção. Com ele a comunicação pareceu ultrapassar as criações mais visionárias, onde a portabilidade, o transporte de dados, a construção de uma biblioteca digital foi-nos oferecido como se tratasse de pura imaginação de crianças em viagens por espaços planetários. 

Da sua sabedoria e dos seu exemplo muito se pode aprender, dessa ideia de que as ideias são um dos mecanismos de transformaçao do mundo. Em baixo, uma apresentação pública reveladora de como o encantamento permite abrir mundos novos. Chamou-se Steve Jobs e continua a valer muito a pena ouvi-lo.


5 de Outubro de 1910

A Implantação da República em 5 de Outubro de 1910, é um dos grandes acontecimentos da História Contemporânea de Portugal, pelas tentativas de transformação de uma sociedade e pela originalidade que na Europa essa forma de governo ainda era pouco generalizada.

Sobre uma monarquia pouco adaptada às transformações económicas e sociais do fim do século XIX, os republicanos souberam aproveitar um imenso descontentamento social com as reais condições de vida da população, a que se juntava uma crise financeira, a difusão das ideias socialistas e a afirmação crescente em sectores operários das ideias republicanas.

A República foi uma primeira tentativa no século XX de modernizar, democratizar e dar à população uma componente de cidadania, capaz de projectar o País numa possibilidade nova de desenvolvimento económico. Neste sentido, a educação como instrumento para formar cidadãos informados e participativos, onde a população pudesse ser alfabetizada foi uma das suas grandes iniciativas. Desvincular o ensino da religião e criar um estado laico, sem religião oficial, foram outras das suas preocupações.

A população, de maioria rural, estava pouco receptiva para as necessidades de escolarização. A República revelou-se pouco sensível à situação económica e social das pessoas. Transformou a questão religiosa num dos aspectos centrais da sua governação e acabaria por afundar-ser num conjunto largo de desilusões.

A crise financeira, a instabilidade governativa, a anémica construção de instituições  que não souberam dar garantias efectivas de democratização e de cidadania, aliadas às desastrosas consequências na economia, da participação na 1ª Grande Guerra, afectaram de modo significativo a balança comercial e afundaram o projecto da 1ª República.

As ideias da 1ª República seriam retomadas em contextos diversos, após o fim do Estado Novo. A incapacidade de o sistema político reformar o Estado e assim suavizar a organização social ou o papel pouco estruturado, de como as ideias da cultura, foram sempre aproveitadas para a dinamização social foram constantes da História portuguesa do século passado.

A História do século XX em Portugal é marcada por esta falta de integração do outro. Se a 1ª República fez as primeiras tentativas de democratização no século XX, é perturbador verificar que existem pontos de continuação reveladores da pouca consistência social e económica em muitas franjas humanas do País.

A comemoração do centenário da República, feito em 2010,  não despertou nenhuma capacidade de interrogar a memória do sentido da República neste século. Sem essa inquietação, alimento do sonho não é possível aprender a conquistar o presente, ameaçado de uma gritante falta de dignidade. A abolição do feriado por um governo que anseia que todos se distraiam do essencial e de uma ideia de comunidade participada é a confirmaçao, aos que ainda não perceberam como vivemos em tempo de negação do essencial, a dignidade humana.

Imagem, "Resistência Republicana à Luta contra a Ditadura (1891-1974),
in Centro Português de Fotografia - Porto - 2010

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

António

Os livros - no melhor de nós

"Ler torna o mundo melhor. Como, não sei. Ou seja, sei: de várias formas e cada um encontra a sua. É essa uma das graças dos livros, eles são uma mistura de religião e pequena banditagem. Tal como os bandidos nos filmes, os livros pegam em dois fios e, sem precisar de chave, ligam o carro. Quando são bonzitos, religam o leitor ao cosmos. Quando são mesmo bons, baralham e dão de novo. Um poema pode devolver-nos o sentido da vida. Já um romance é capaz de algo ainda mais importante, como ensinar-nos a namorar melhor.

Os livros são como as pessoas, só que em melhorzinho. Ninguém é fantástico vinte e quatro horas por dia. Autores banais fizeram livros extraordinários, porque no livro deram o litro. Imaginem o que seria a nossa vida só com os grandes momentos, tipo clip dos golos. Um livro é isso, uma sopa à qual basta juntar água e levar ao lume, ou seja, ao leitor. O livro está frio, desidratado, até que um leitor lhe pegue. Aí dá-se a faísca. Mas há um cuidado a ter.

Os livros são como o tango, dançados mano a mano. Se mil pessoas começam ao mesmo tempo a ler o mesmo livro, ao fim de poucos minutos já ninguém está sequer na mesma linha. Ao contrário do cinema e da televisão, o livro segue o tempo do leitor. É uma dança a dois, silenciosa como as melhores danças. Apesar de já estar escrito, impresso no papel, o livro só dança se o leitor quiser. O livro dá a melodia, o ritmo marca quem lê.

Os livros entram na nossa cabeça, porque é esse o poder da palavra escrita. Com uma originalidade: só entram na nossa cabeça se o leitor agir. Olhar todos olhamos. Ver implica estarmos atentos.E ler? Ler é olhar com intenção a dobrar: dos olhos e do espírito. Não fomos nós que criámos as árvores e o céu, mas fomos nós que inventámos a escrita: umas garatujas esquisitas que, juntas, formam coisas e ideias e sabores.

Sermos leitores não nos salva de nada. Infelizmente, quando fecharmos o livro a maior parte das vezes voltamos a ser quem éramos. A redenção durou pouco. Mas, enquanto estamos a ler, ah, nesse entretanto (nesse ler) podemos ser grandes! E a boa notícia é que há sempre outro livro por abrir.

Os livros dizem sempre a verdade, mesmo quando mentem. Cá está, uma vez mais: como as pessoas. Não, não estou a dizer que os livros são melhores que as pessoas. Apenas que os livros são as pessoas - autores e leitores no seu melhor".

Rui Zink, "Ler torna o mundo melhor", in Revista Estante (Número de Verão), pág. 6

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Dia mundial da música

"E há sempre sonhos
sonhos doces, tão mágicos, tão desejáveis
mas tão longe do que somos e temos.

Há sempre outros
sempre esses outros que nos avaliam
que nos fazem corar, sorrir, amar, chorar.

E há sempre nós...
nós bonitos, nós feios,
nós sozinhos, nós amados...

Quem me dera que houvesse
sempre uma imagem de nós nos
sonhos dos outros!"


Bernardo Sassetti escreveu estas palavras e estes sons a pensar na Rita. Nós, mesmo no efémero movimento dos dias pensamos nele, muito por essa busca de perfeição de escutar o silêncio com que construímos os sonhos que nos movem. 

Neste Dia Mundial da Música podíamos relembrar diferentes figuras, que preenchem a memória coletiva da Humanidade, pelo que fizeram sentir, pelo que permitiram transformar, pelos horizontes que reescreveram. Optamos por um amigo. Sassetti dá-nos em tonalidades de silêncio, os fios de olhar capazes de reconstruir os sonhos, em encontros de gestos cuidados.

Na sua inquietude criativa concede-nos momentos de encanto, de descoberta dos elementos que pelo silêncio se descobrem em cada anunciada manhã. Com os seus pianos descobrimos os sonhos, onde tentámos que também alguém nos espelhasse o que mais admiramos e buscamos nestes breves momentos. Neste Dia Mundial da Música, nas inexperientes palavras, deixamos os elementos do seu génio, que tanto nos enriqueceu.  


Escritor do mês - António Lobo Antunes

António, é uma artesão das palavras, respira com elas num assombro que nos transmite as condições mais nobres e desoladas da natureza humana. António não escreve histórias. Usa as palavras para respirar os objetos do quotidiano, os gestos que nos deslumbram entre o olhar mais doce e a solidão das horas gastas.

António Lobo Antunes tem-nos dado em múltiplos livros o trabalho artesanal do escritor que do mundo, da humanidade se reconstrói em cada coração para chegar a olhares mais particulares, à sombra "das árvores nas janelas". António escreve livros com fios, por onde as nossas células adivinham caminhos e formas nos próprios passos. Com as suas palavras, as suas notas, reformula os significados das emoções que por entre as cotovias do bosque nos parecem tão pouco expressivas para a raridade, a memória de tempos ali vividos.

António escreve usando a emoção nas palavras, para encontrar nos gestos trabalhados, a conquista breve dos dias. António é um poeta não das palavras, mas do real por onde conquista as sombras e ausências, os significados, os instantes do que significa viver, existir e morrer. António Lobo Antunes nasceu com essa ambição de ser um escritor, para nos dar o ritmo das paisagens respiradas, onde tece as palavras que nos fazem olhar para o interior do que somos. Formou-se em Medicina, especializou-se em psiquiatria, mas descobriu que a a sua maior identidade são os livros.

Daqueles, poderemos destacar os Livros de Crónicas (com destaque obrigatório para o quatro e o cinco), Memórias de elefante (1979), Explicação dos pássaros (1981), O Regresso das caravelas (1988), O Manual dos inquisidores (1996), Exortação aos crocodilos (1999), Não entres tão depressa nessa noite escura (2000), Ontem não te vi em Babilónia (2008) e Sóbolos rios que vão (2010).

A sua obra tem recebido diferentes prémios. Destaque para a France Culture (1996), Donoso (2006), Camões (2007) e Clube Literário do Porto (2008). Em 2012 foi o escritor em destaque na Escritaria, festival literário e cultural da cidade Penafiel. É um dos nomes universais da língua portuguesa e sem dúvida um autor amplamente merecedor de um Nobel na Literatura, embora isso seja pouco relevante. O que nos tem dito e explicado das nossas sombras e alegrias e a sua exposição mundial fazem dele uma das referências culturais em língua portuguesa.

Outubro ...

Em Outubro, quase tudo
volta enfim ao seu lugar:
os meninos na escola
e os pais a trabalhar.

Chega o poeta à janela,
vê as folhas secas no parque
e escreve uma vez mais
que os pés que pisam as folhas
fazem o chão crepitar.

Mas hoje o poeta tem sorte,
que o céu alto, azul e limpo
convidou para um refresco
 um sol aberto, tão forte
 que parece que o Verão
ainda vai ali à porta.

Amanhã, porém, a chuva
virá, reclamar um lugar
ao céu hesitante do Outono.

E o poeta pensará:
"É tempo de me sentar
com a manta nos joelhos
e ouvir a chuva a chorar
no chão da rua e dos versos.

João Pedro MéssederO Livro dos Meses
Imagem,  Copyright - Norbert Mayer - Autumn Days,