quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Dia da Alimentação






(Alguns dos conteúdos produzidos para comemorar o Dia da Alimentação. Recursos produzidos no âmbito do Programa Saúde e dinamizados pelos docentes da área das Ciências Naturais).


António ou a breve eternidade das palavras

Dia Mundial da Alimentação

O amor pelas palavras

As palavras têm uma efemeridade de eternidade, no sentido de com elas desenhamos as imagens, as ideias que pensamos poder fazer criar mundos onde nos sentimos bem, onde queremos adormecer, na esperança que cada manhã seja uma possibilidade nova, um caminho que nos reencontro connosco, a nossa respiração.

Os livros são assim sonhos deixados no nosso caminho, convites para abraçarmos outras tantas formas de ver o mundo, de navegar em geografias, em viagens onde o silêncio possa sussurar entre o vento, das histórias que nos fazem meditar sobre como criamos o nosso mundo, como o relacionamos com todas as individualidades que connosco habitam o quotidiano.

O amor às palavras, nessa ideia de as ver como construtoras do mundo e de nós, é uma tarefa difícil de realizar nas escolas pelo motivo pouco óbvio, mas estruturante de que naquelas se aprende a ler. E é essa a dificuldade maior, gostar de livros, fazer gostar de livros, pois por que não usamos todos esta chave única que faz abrir tesouros desenhados em espaços e tempos diversos, mas sempre com a ideia do convite. Todo o livro já formalizou um convite, que se dirige a nós. 

Leituras com futuro  não é um projeto da Biblioteca. É um projeto de criação de uma comunidade de leitura, com alunos do 11º ano, na disciplina de Estudos Literários, com a participação de um jornalista do Jornal de Letras e que ambiciona ler livros, discutir as suas ideias e as suas palavras. Neste projeto, dinamizado pela professora Filipa Barreto, o contacto com os livros e com os seus autores é um forma inovadora de trazer esse gosto, esse amor pelas palavras, essa efemeridade de eterno que todos procuramos.

Num tempo muito pouco dado a entusiasmos e a causas é essencial dar conta dos gestos apaixonados pelas causas. O livro e a leitura é uma grande causa. Os alunos tiveram uma atitude excecional de entrega ao livro, de questionamento ao valor das opções, das escolhas que com as palavras  todos fazemos.  O seu exemplo de dedicação e de maturidade parece-nos um valor que deve ser destacado, pois as  escolas devem tentar ser aquilo que permita neles exprimir a criatividade. A imaginação para alimentar essa criatividade faz-se com percursos onde estejam o nosso rosto e a nossa respiração.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

No nascimento de Agustina

«Os meus livros são, afinal, ou só isso, a oportunidade de milhões de almas, únicas todas elas, almas de sapinhos cheios de importância de viver. [...] Uns partem um pouco depois de dizerem bom dia, outros ficam até morrer. Todos se continuam naquilo que têm de profundamente entre si – a vocação para serem sós, porém aceites por cada um dos outros. Porque a solidão que me acusam de impor aos meus personagens, como uma grilheta, é apenas a sua individualidade biológica, a exclusividade, a reivindicação superior da sua própria luta. Um homem jamais corresponde a outro homem; as suas reacções e conclusões não equivalem a vivência de outra alma, a experiência doutro eu. O mistério da vida cumpre-se em cada homem de uma forma única.» (1)

Retemos dela uma ideia de uma luz de quem caminhou ao contrário, da maturidade para a infância, de quem nos ensinou que a vida é demasiado importante para ser levada a sério e que por isso nada mais difícil do que o gesto grave, a dureza do caminho, para os que procuram um lugar de felicidade, de conquista de individualidade. Por isso as fórmulas rápidas e fáceis são inexpressivas de qualquer verdade, pois em cada ser há uma respiração diferente.

Nas suas obras, as mulheres de diferentes gerações revelam essa aspiração de humanidade, que condensam o que viveram, o que sonharam, em luta com o real sem se saber se se ousou o suficiente, se a afirmação foi suficiente para chegar a esse momento quase final em algo que se compreendeu. 

É uma das grandes figuras da cultura portuguesa deste século. Pela escrita, pelos temas, pelo humor e por aquele sorriso de quem já parece ter percebido o sentido das coisas e por isso sorri para o horizonte, como a criança acabada de nascer. Chama-se Agustina Bessa-Luís e faz hoje noventa e dois anos. Deixamos um excerto do final desse grande livro, Sibila:

«É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas, os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.» (2)

(1) ; (2) - Agustina Bessa-Luís, in Revista "Lusíada", Porto, Outubro - 1955; Sibila

terça-feira, 14 de outubro de 2014

No aniversário de Hannah Arendt

"Na medida em que a hipótese central do totalitarismo repousa sobre o"tudo é possível", uma cidadania sensata e uma acção racional devem repousar sobre a hipótese inversa de uma constituição da natureza humana, ela própria justificada pela sua capacidade de abrir, de preservar ou reconstruir um espaço político". (1)

Hannah Arendt é um dos mais importantes nomes do pensamento filosófico do século XX. Devemos-lhe uma lucidez capaz de compreender os mecanismos que suportam a maldade como forma de organização de um qualquer poder político. O seu estudo assenta sobre esse acontecimento inexplicável nos fundamentos racionais da humanidade, essa doença do espírito que foi o nazismo.

Hannah Arendt num filme de Margarethe Von Trotta que é um exercício de cidadania e de afirmação democrática pelo que faz discutir os elementos simbólicos da organização das sociedades, revelou uma dimensão que urge salientar pela sua importância sociológica. O filme retrata a julgamento de Eichmann e a sua iniciativa de tentar compreender como se suportava no pensamento, na explicitação o "mal absoluto", num indivíduo responsável pela eliminaçãode tantos milhões de judeus. E o que Hannah Arendt compreendeu é que aquele homem não conseguia estar à altura da terrível condição que foi o nazismo. N-ao existe afirmação ideológica, nem arrependimento.

O que Hannah Arendt ouve é a voz de um burocrata, um homem que cumpre tarefas, ordens, que não está envolvido nas suas ações na engrenagem sequencial da morte que era o nazismo. Hannah Arendt compreende que existe nestes funcionários a execução do mal, a banalidade extrema desse mal. Os funcionários de Hitler não corporizam uma ideia de mal. Nessa banalidade do mal, houve uma Alemanha instruída, culta que fechou os olhos a este drama humano. A antiga aluna de Heidegger insiste que não se pode desligar o pensamento da quotidiano. 

Heidegger, filósofo da Ontologia tem dificuldades em cumprir esse compromisso. Valerão alguma coisa as palavras que não se comprometem com a dignidade humana? É essa a lição de Hannah Arendt. E a de que o pensamento tem uma moral, tem uma humanidade. A sua crítica ao colaboracionismo judeu nos campos é mais uma frente do seu vigor profundo e humano.

O filme sobre Hannah Arendt não nos ilustra um período histórico. Ele é uma peça essencial para pensar as sociedades contemporâneas, o modo como as formas de poder biopolítico se organizam. Os tempos de um crescimento sustentado de valores civilizacionais está em suspensão e a formulação do pensamento único, do fazer sem refletir deve-nos fazer pensar, que sociedade pretendemos construir, num mundo demasiado formulado a práticas burocráticas com ausência de valores de cidadania.

(1) - Hannah ArendtBetween Past and Future: Eight Exercises in Political Thought.

No nascimento de um poeta - E. E. Cummings

" (...)Teu mais ligeiro olhar facilmente me revela
Embora eu já tenha me fechado, como dedos,
Abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
Tocando habilmente, misteriosamente sua primeira rosa (...)
Somente algo em mim entende
Que a voz dos teus olhos
É mais profunda do que todas as rosas.

Ninguém,
Nem mesmo a chuva
Tem mãos tão pequenas.»

(Nos cento e vinte anos do nascimento de um dos poetas mais importantes da América do século XX, pela forma inovadora na escrita e pelos valores modernos, muito ligados ao coração e à individualidade humanas.)

                 E. E. Cummings, «somewhere i have never travelled, gladly beyond»                        in poetryfoundation.org