sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Albert Camus

"Bem pobres são aqueles que precisam de mitos. Descrevo e digo: 'isto é vermelho, azul, verde. Isto é o mar, as montanhas, as flores.' Tenho eu necessidade de falar de Dionísio para dizer que gosto de esmagar bolas de lentiscos debaixo do meu nariz?"  (1)

Há um pouco mais de cem anos nascia um dos grandes (a palavra é pobre para o exprimir) pensadores sobre a condição humana. Foi identificado como um dos que pertenceu a um século onde alguns homens pensavam a sociedade ou para indicar possibilidades ou para forjar caminhos alternativos, os chamados intelectuais. A palavra não lhe faz completa justiça, pois ele foi sobretudo uma voz moral, acima da pequena política, das intrigas de palácio, onde soube falar sobre a natureza humana e dar-nos esse ânimo na voz que caminha entre a desistência mais passiva e o não afirmativo, comprometido, solidário por uma causa. A sua causa foi a da democracia da beleza, conceito, nobre à procura de uma revolução, sim a a da vida, como ele também expressou.

Filho de outro continente, das geografias humanas colonizadas, dessa mistura de povos e culturas, filho nas margens da sociedade, cultivou a resistência e o estudo como a verdadeira porta para se ser livre. É assim filho dessa ideia, que a França cultivou de que uma educação republicana, poderia fazer nascer um País desenvolvido. E escreveu sobre nós, as nossas ambições, a fragilidade humana na efemeridade do tempo e os valores morais que devemos vestir em qualquer contexto. Tony Judt chamou-lhe o 'Melhor homem de França' e esta sente-lhe a falta, desde que se tornou passivamente indiferente à contemporaneidade.

Escreveu O estrangeiro, A peste, O mito de Sísifo, Os discursos da Suécia, A morte feliz e O primeiro homem. Foi Prémio Nobel da Literatura em 1957 e é das poucas vozes coerentes do século XX onde podemos ainda ver o caos e a angústia dos tempos modernos como uma forma de expressão da humanidade, da nossa natureza. Compreendeu os limites das tiranias do século XX, antes de algumas das suas vozes mais sonantes e devemos-lhe isso, essa coerência pelo que somos. Caminhou sozinho, com a voz interior de um oráculo que se quer descobrir a si nos outros.

Essa felicidade que procurou, que procuramos, entre múltiplas imagens, na procura da memória mais bela a fundir no sonho, entre o universo visível que nos é dado a ver e a nossa experiência humana. Chama-se Albert Camus e nasceu há muitas décadas para que o visitemos nestes tempos obscuros que exigem um conhecimento de um homem essencial do século XX, de múltiplos séculos, nessa luta essencial entre o absurdo e a revolta, para a construção do possível humano.

(1) citado de Maria Luísa Malato, "Lumières d'Albert Camus

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sophia - O nome das coisas


No dia do seu aniversário, um recurso vídeo sobre um dos autores no mês na Biblioteca, cuja vida e obra são uma inspiração contínua. As palavras como ferramenta para conhecer a claridade da azul-respiração das coisas, entre o vento e o mar, na construção de um cosmos que emerge do caos e nos dá o essencial da essência humana.

Escritor do mês - Sophia

"Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume de tília e do orégão."

Sophia, "Arte Poética II", in Obra Poética III, pág. 95

Onda Pina - A poesia em memória de um poeta

O Museu de Imprensa está a preparar um conjunto de iniciativas para assinalar o 71º aniversário do nascimento de Manuel António Pina, (18 de novembro), que foi um poeta, cronista, escritor e jornalista de grande valor cívico e que em 2011 foi Prémio Camões. Com o título Onda Pina - A Poesia em Movimento, procura  envolver escolas e universidades de língua oficial portuguesa e ou escolas / centros de Português de outros países na evocação poética de Manuel António Pina. A proposta é que no dia do seu nascimento, sejam lidos poemas deste autor em espaços diversos, ou realizadas outras atividades que tenham por base a vida / obra do autor.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Escritor do mês - Eugénio de Andrade

Em novembro decidimos escolher dois autores que nos falam do mundo com as palavras num sentido em que elas parecem estar depuradas de todo o excesso que muitas vezes observamos, dando-nos apenas o essencial, numa virtude minimalista das coisas vividas. Eugénio é o primeiro em destaque e é um dos grandes poetas da língua portuguesa. 

Quem o conheceu em sessões de poesia e na austeridade poética da sua vida, entre a seda das pedras da ribeira e as folhas dos jacarandás que na sua praça lhe enchiam as folhas de vento e humildade não pode deixar de o lembrar como uma figura única na construção das palavras. Se há anos parecia excessiva a sua ideia de que a sua poesia era uma possibilidade de ver o mundo e que dita por outros não tinha encanto, hoje compreendemos melhor que as palavras são sempre essa biografia que nós colocamos nelas.

Eugénio é um dos grandes poetas de língua portuguesa, ultrapassando este tempo geográfico para integrar o seu olhar na humanidade, nos gestos mais ousados com que tentamos escrever o real. Em Eugénio de Andrade, a linguagem, a precisão das palavras, a melodia dos sons, a relação com a natureza e a integração dos elementos mais simbólicos (terra, água, luz e vento) estão presentes de uma forma muito precisa. A sua poesia nasce desta combustão dos elementos, procurando a simplicidade da respiração, tentando a pureza que é tão e só essa ligação aos elementos.

Livro da semana - Um deus passeando pela brisa da tarde

Título: Um deus passeando pela brisa da tarde
Autor: Mário de Carvalho
Edição: 14ª
Páginas: 215
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04433-4
CDU: 821.134.3-31"19/20"

   
"Aperceberam-se de que o Senhor Deus percorria o jardim pela frescura do entardecer..."

É talvez um dos mais interessantes livros de Mário de Carvalho. Em Um deus passenado pela brisa da tarde, voltamos ao Império Romano, ao seu contexto cultural, aos símbolos da sua governação, através da história de um governador de uma cidade, justamente um duúnviro, Lúcio Valério e a sua chegada ao governo de Tarcisis. Nele vemos o afastamento do seu cargo num tempo de turbulência onde o Império já se sente incapaz de gerir o seu espaço e o dos povos nas suas fronteiras.

É um livro de um escritor maior pela qualidade da narrativa, mas também pela utilização de um quadro de recursos de grande significado. Trata-se de uma leitura muito interessante, que conduz o leitor num espaço narrativo que se alimenta dos condicionalismos particulares para o colocar ao sabor de um problema que não foi só do Império Romano. Ele é muito atual.

É um livro que nos faz interrogar até que ponto os sistemas políticos podem suportar as ideias de uma consciência livre e de homens corretos. É possível no governo da cidade não tomar em conta os seus rituais e não atender a uma satisfação pública como o critério mais relevante? É um livro que reconstrói no imaginário a atmosfera única que foi o início do tardo Império Romano. A justiça e o imaginário das convições sociais, de que modo são organizadas? É a sua garantia o que move mais as linhas de uma cultura dominante? Um livro sobre os momentos mais críticos, as tempestades e como os homens se podem organizar, os valores que podem ou devem manter.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Novembro

Novembro

Que a castanha encarvoada
que me aquece as mãos geladas
me compense deste frio,
desta chuva de  Novembro.

E também que o vinho novo,
que a terra me deu sem pressas,
a garganta me amacie
e o coração me aqueça.

Isto pensa o camponês
lá por meados do mês.

(Enquanto o operário pensa
em certa revolução
que há muitos e muitos anos
neste mês principiou...)

João Pedro Mésseder, O Livro dos Meses
Imagem, Laura Wood, Rain of Autumn