quinta-feira, 4 de junho de 2015

A praça da paz celestial


«Estamos longe de parecer seres humanos que somos incapazes de nos reconhecer uns nos outros. (...) Quando nenhuma consciência superior, cultural ou religiosa está lá para canalizar os instintos, não encontramos meios de nos defendermos, senão agredindo.» (1)

Os dias estão pesados de indiferença. A liberdade tornou-se um protocolo de circunstância exibido em palácios de papel. E o gesto antigo, a palavra maior perdeu significado. Muitas certezas em poucos corações destruíram a magia de conhecer e lutar pelo mais digno, a decência da condição humana. Passaram anos, muitos e esse grito e esse sorriso ainda aqui estão, por todos os que imaginaram na esperança, o voto maior. A construção de um poema chamado LIBERDADE. Foi um poema de coragem, de ingenuidade e de amor pelos outros, por nós. Juntou estudantes, intelectuais, trabalhadores diversos num ideal de uma sociedade mais livre, menos corrupta e igualmente mais desenvolvida. Ocorreu na China, na Praça Tian'anmen, em Pequim e conduziu a um massacre que é a única evidência que alguns «espíritos revolucionários» costumam saber reconhecer. É pela sua expressão uma das mais importantes datas do século XX pelo grito de determinação e de coragem que envolveu. É importante não esquecer a luta pela liberdade num País totalitário, onde a dignidade humana é irrelevante, mesmo hoje. É essencial ver nessas flores de laranjeiras destruídas, o amor maior, a respiração autêntica por algo universal, a fraternidade e a humanidade de cada rosto.
(1) Zhu Xiao-MeiO Rio e o Seu Segredo
(Imagens, in MagnumPhotos.com)

A memória das palavras - João Aguiar

Quando um escritor parte, a sua obra, as suas ideias, a sua morada eterna são as suas palavras. João Aguiar deixou um discurso narrativo muito imaginativo nas formas e muito ligado à memória histórica. Nele transpareceu sempre uma imagem de príncipe das letras e o seu sucesso como recurso nas aulas de História foi sempre a confirmação das suas qualidades, junto dos adolescentes que mergulhavam no imaginário da Portugalidade que ainda se espera audaciosa. Um excerto, de um dos seus livros, A Catedral Verde).

Ainda não logrei definir com exactidão o que torna este lugar tão especial. Talvez a disposição das árvores, o modo como as suas cores se misturam sob a luz do Sol, talvez o jogo de sombras, talvez a folhagem – ou, neste momento, os ramos desnudados -, talvez o silêncio, porque é raro ouvir aqui outro som que não seja o das próprias árvores tocadas pelo vento. (...) Lembro-me da primeira vez que aqui vim. Seguia de carro pela estrada, avistei o cruzeiro, que despertou a minha atenção – nesse tempo eu era um recém-chegado a Vale de Monges. Reduzi a velocidade, acabei por parar, o carro ficou estacionado mais ou menos no sítio onde hoje está. 

Voltei a olhar para o cruzeiro, que se ergue bizarramente, não à beira da estrada, mas no meio de um terreno coberto de mato rasteiro. E avistei, à distância, em pano de fundo, a mancha verde. Saí do carro sempre a olhar para ela, atravessei a estrada sem deixar de a olhar e caminhei até ao ponto exacto onde me encontro agora. Vim puxado, ou empurrado, por uma força que não sabia se me era exterior ou se era um impulso da minha fantasia que eu inconscientemente vestia com as roupagens da atracção magnética.

Há aqui, pensei então, uma configuração especial que evoca a entrada de um templo: uma espécie de propileu. Mas esta configuração, pensei ainda, não é, ou não é exclusivamente, física. A evocação não está na forma como as árvores se encontram dispostas nem nos contornos e acidentes do terreno. Não é a imagem concreta das coisas, é a imagem que as coisas desenham dentro de mim.

Hoje, após tantas visitas solitárias a este lugar, hoje penso o mesmo. Talvez por vergonha, não mais voltei a fazer o que então fiz. Ajoelhei-me primeiro, depois prostrei-me de olhos fechados, as mãos coladas à terra, e rezei – digo rezei porque todo o discurso dirigido a Deus, ainda que o nome não seja pronunciado, deve ser considerado uma oração.

Não voltei a fazê-lo nem o poderia fazer neste momento sem, prosaicamente, ficar encharcado. Isso é pouco importante, porém… O lugar conserva o mesmo encanto, o silêncio feito de murmúrios é o mesmo, o mesmo é o verde luminoso e o movimento vagaroso, solene, da ramaria.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Livro da semana - O mundo

Título: O mundo
Autor: Juan José Millás 
Edição: 1ª 
Páginas: 174
 Editor: Planeta
 ISBN: 978-989-657-003-3
CDU821.134.2-31"19/20"

"As tardes mortas, com a perspetiva que dá o tempo, acabaram por ser as mais vivas da minha existência. Foram elas, para o bem ou para o mal, que me fizeram; daquelas tardes por onde deambulei ocioso, como um fantasma, nasci. (...) 

E o que vi, sobretudo, foram as ligações invisíveis que uniam tudo, e eram tão sólidas, as ligações, que na realidade profunda tudo era a manifestação de uma vida. Aquela diversidade estava ao serviço da unidade, pois só havia uma coisa, a minha rua, quer dizer,a Rua, ou seja, o mundo." 

No dia mundial da criança, um livro sobre cada de um de nós e essa experiência da infância e de como ela molda a vida. Todos nós somos diferentes e vivemos experiências de infância particulares. De algum modo a infância torna-se uma rua, onde crescemos, onde vimos o mundo e a partir do qual construímos a nossa própria forma de ser. Juan José Millás escreveu um livro sobre a sua infância e também sobre o seu mundo.

Há livros assim. Livros que entram em nós como um vento, inundando todos os momentos por onde as palavras respiram o que viveram e o que construíram, entre o silêncio e o pavor de desencontros. A voz que se esquece de si no mundo que não se entende, nos milagres que não presenciamos, nos lugares que são pouco nossos. Há livros que aspiram a contar-nos as experiências de sal e lágrimas com que muitas vezes crescemos, na incompreensão de uma festa onde somos pouco acolhidos.

O mundo é um desses raros livros, onde a infância marca uma vida, o seu frio e o seu vento, e onde, entre o maior desconforto e a maior solidão, se procura construir vidas reais. Realidade forjada, a partir de uma ficção vivida, dos seus ciclos, de tudo o que não entendemos e que permanece em nós. Um livro sobre a infância, na Espanha do franquismo, sobre os adultos e a sua solidão feita de medos e sobre uma sociedade de pobreza, de carência, que renega a memória de cada um, a sua participação no real.

Um livro sobre a dificuldade de cada criança em ser aceite, do social como linha forçada de uma individualidade pouco compreendida e das feridas que da infância trazemos para os mundos irreais de onde tentamos renascer. Um livro que é uma memória de um tempo, de uma geração de um mundo que se fazia e criava na rua que nos fazia crescer. Ainda lá estamos, mesmo que já lá não vivamos, pois os seus cheiros e as suas cores ainda nos acordam em muitos momentos. 

junho

junho tem ar de festa
mesmo que festa não haja.
Não se sabe bem porquê,
se todos ainda trabalham.
Talvez festa de ser véspera
de chegar, em junho, o Verão
e com ele um ,
um comboio, um avião,
ou simplesmente umas pernas
de andarilho sem receio,
que nos levem com os amigos
a um lugar de eleição
que se guarde para sempre
no baú do coração.

João Pedro Mésseder, O Livro dos meses. Lápis de Memórias. 2012.