sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Escritor do mês - Sophia


Caminho da manhã
 "Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. 

Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. 

Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. 

À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. 

Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada. 
 
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível".
 
Sophia, "Caminho da Manhã", in Livro Sexto, 1962

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Filme do mês - A hora do lobo


A hora do lobo é um filme do conhecido Jean-Jacques Annaud e que nos reconduz a um dos períodos da história da China e a um do seus aspetos mais perturbantes - a revolução cultural. Da  China de Mao, em 1967 chega-nos através dessa leitura das ideologias que esquecem com frequência a humanidade, a respiração individual das pessoas e a memória de um território.

De uma profunda beleza natural, A hora do lobo devolve-nos paisagens naturais de grande significado sobre a Mongólia e coloca-nos sobre o simbolismo das culturas ancestrais, isoladas. mas de uma verdade, de significados humanos profundos. Chen Zen, um jovem estudante de Pequim integra essa ideia de educar uma população rural isolada, no modo como a revolução cultural sempre achou que cada indivíduo é um ser a dispensar nos grandes valores do estado e da sua dominação ideológica.

O jovem perceberá que a comunidade a educar tem um sentido de identidade próprio, uma cultura de território, onde vive uma das figuras simbólicas das estepes, o lobo. A hora do lobo revela a ligação entre os lobos e os pastores,na formulação da própria identidade do território. A captura de um lobo pelo jovem irá desencadear uma ameaça ao próprio sentido de existência da comunidade e a ideia burocrática do poder central de eliminar os lobos revela-se ameaçadora e perturbante.

“A Hora do Lobo” é um filme de Jean-Jacques Annaud que surge na senda de outros filmes sobre animais feitos pelo realizador francês (“O Urso”, de 1988, “Dois Irmãos”, de 2004”) e adapta o livro Wolf Totem de Jian Rong (pseudónimo de Liu Jiamin). 

Livro publicado em 2004, sobre a sua experiência de jovem estudante enviado em missão “educadora” para as estepes em 1967, e que na China se transformou no maior sucesso editorial desde O Pequeno Livro Vermelho, de Mao Tsé-Tung. A hora do lobo realiza a adaptação do livro, Wolf Totem, e é nesse sentido um filme de uma grande beleza pelos conteúdos éticos que discute, as relações de poder, as ideologias, o território e a natureza. 

História e cinema

O cinema é um das ferramentas mais interessantes para conhecer a memória, ou excertos /fragmentos dela. Ao convocar imagem, literatura, música no sentido de apresentar uma narrativa que persegue diferentes objetivos, o cinema auxilia-nos a conhecer universos que não foram vividos por nós. O cinema dá-nos fontes de entretenimento, apresenta-nos contextos históricos, recria universos fantásticos e procura discutir princípios e formas de olhar o Mundo. O cinema vive muito da oferta da arte da ficção, entre o narrado como acontecimento e a poética que evidencia formas possíveis de ver o real.

O cinema possui uma linguagem diferente de outras linguagens narrativas, pois dá através da imagem bidimensional uma leitura que procura aproximar-se das dimensões do espaço físico, onde habitamos. Na verdade o cinema sugere-nos pela sua capacidade de reproduzir som e movimento uma quase identificação com uma realidade, ainda que seja uma leitura ou uma impressão daquela. O cinema apresenta-nos uma dupla representação, dos cenários, dos actores e da própria película.

Ainda assim é um recurso de grande significado na aprendizagem de quotidianos, de movimentos históricos ou do papel do indivíduo na construção de transformações sociais e culturais. O cinema é um suporte de conhecimento que nos pode levar a compreender processos e geografias culturais, formas impressivas de olhar o mundo. O blogue da Biblioteca irá destacar um filme mensalmente. Ou como sugestão de um filme em exibição, ou como recurso significativo, no âmbito da História.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Dias do Desassossego


A Fundação José Saramago e a Casa Fernando Pessoa escolheram duas semanas para celebrar a voz dos livros em diversos lugares da cidade e em boa companhia. De 16 a 30 de Novembro, são os livros que estão no centro das atenções: lançam perguntas, rebatem ideias, provocam, inquietam. As duas casas de autor, de Lisboa, apresentam para a 3.ª edição dos Dias do Desassossego um programa que cruza música, cinema, mesas-redondas, acções de animação e promoção da leitura, poesia dita, passeios na cidade - guiado sempre pela literatura. Na programação consta a iniciativa designada - O Desassossego em Coletivo: A Literatura no Espaço Público.

Esta iniciativa a decorrer na segunda quinzena de novembro vai procurar fazer da literatura uma experiência de coletivo. Esta iniciativa pretende ser uma oficina de formação, onde irão ser trabalhados textos de Fernando Pessoa e José Saramago, através de excertos escolhidos a partir de temas como a identidade, a morte, o amor, a política e a contestação. Saindo da escola, os alunos irão ler e dizer esses textos a quem passa, a quem se interroga e a quem se deixa desassossegar. Nesta iniciativa irão participar alunos da nossa escola, 0 10º H1, o 11º E1 e o 12º E1. Juntamente com a Escola Secundária Rainha Dona Amélia irão também participar alunos das Escolas Secundárias Gil Vicente e Pedro Nunes. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Manhã submersa - livro da semana

É um livro marcante de um País, de um tempo, de uma geografia, de uma forma de construir o tempo e as sociedades humanas. É um livro que serve um projeto - a celebração do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira. É ainda um livro que se propõe como ponto de partida para uma das provas do Concurso Nacional de Leitura para o Ensino Secundário. É um livro sobre esse fechamento de janelas que o Estado Novo personificou numa ideia orgulhosa de solidão. É uma narrativa sobre a docilidade de estruturas mentais fechadas. A circulação na hierarquização de tempos sociais restritos, onde a individualidade submerge a qualquer ideia ou respiração próprias.

"O peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exatamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida de importância que em cada momento teve. Como se eu jamias tivesse envelhecido. Exatamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança. Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas, a um apelo de abandono, a um esquecimento «real», a bruma da distância levanta-se-me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas «comovente»... Dói-me o que sofri e «recordo», não o que sofri e «evoco». (...)

Eu vivia, de resto, agora, e cada vez mais, da minha imaginação. E foi por isso a partir de então que eu descobri a violência da realidade. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Assim, a minha pessoa e tudo aquilo que eu escolhera para mim não tinham sobre o mais a importância que eu lhes dera. Chegado à realidade, muita coisa erguia a voz por sobre mim e me esquecia. (...)

Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos prefeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos". (...) 
- Vergílio Ferreira - Manhã Submersa