segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Mozart: uma vida secreta - livro da semana

Título: Mozart, uma vida secreta
Autor: Wolfgang Amadeus Mozart
Edição: 1ª
Páginas: 155
Editor: Cavalo de ferro
ISBN: 989-623-020-X
CDU: 82-6

Sinopse: 

Conhecemo-lo pela genialidade da sua música. Foi sem dúvida um expoente de uma expressão cultural, a perfeição pela simplicidade daquela forma de composição. 

Mas foi mais do que isso. Representou uma ruptura no caminho difícil de permitir ao Homem construir o seu conhecimento do Mundo, formulando um caminho. Incompreendido, lutou sempre usando a liberdade e a convição. 

Se a música o eternizou nessa perfeição de quem canta com os anjos, a sua atitude, a sua rebeldia de se afirmar pelo seu talento, acima dos protocolos da corte e da mediocridade de tantos foi um exemplo inspirador. No século XVII um cozinheiro, um funcionário da corte ainda vale mais do que um músico, mesmo que ele se chame Mozart e encante os anjos. Foi esse o seu erro, a ingenuidade de quem acredita sempre no valor do belo acima de qualquer outra dimensão. Nesta Vida Secreta, as suas cartas à família denunciam os seus valores essenciais que a sua música sempre exprimiu. Alguns excertos:

"Dêem-me o melhor piano da Europa, mas com uma audiência que nada percebe, ou que nada quer perceber, e que não sente comigo aquilo que toco, e perderei todo o prazer. (...) mas sabia também que não podia agir de forma diferente sem faltar à minha consciência e à minha honra. (...) 

Se podemos chamar divertimento livrarmo-nos de um príncipe que não nos paga e abusa de nós até à morte, então é verdade, estou divertido, (...)" Bem", disse ele, "parece-me que aqui dificilmente conseguirá fazer um bom trabalho", "Porquê?" Vejo por aqui tantos medíocres que fazem carreira, e eu com o meu talento não deveria ser capaz? (...) Pois também aqui tenho os meus inimigos, mas onde é que não os tive? No fim de contas, é sempre bom sinal".

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Lembrança de Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos 
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


Cecília Meireles, «Canção», in Da Viagem (1939)
Imagem, in folhademinasgerais.blogspot.com

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Escritor do mês - Miguel Torga

«Liberdade. Passei a vida a cantá-la, mas sempre com a identidade no pensamento, ciente de que é ela o supremo bem do homem. Nunca podemos ser plenamente livres, mas podemos em todas as circunstâncias ser inteiramente idênticos. Só que, se o preço da liberdade é pesado, o da identidade dobra. A primeira, pode nos ser outorgada até por decreto; a outra, é sempre da nossa inteira responsabilidade.» (1)

Um dos escritores do mês na Biblioteca é mais que um autor. É uma paisagem humana de uma raridade e de uma frontalidade só quase vivida pela geografia mais sublime. Mais que um homem, foi uma criação de um património, a respiração do vento mais puro, no alto das fragas.
Miguel Torga representa na dimensão humana o carácter duro, mas solidário, frontal, mas apaixonado por uma consciência de valores imutáveis. A sua escrita apresenta o encanto silvestre e a originalidade humana desse reino único, muito especial, aquele deu o nome de maravilhoso. 

A sua obra e a sua figura são a morada desse tempo quase eterno onde a montanha faz nascer a liberdade e a beleza. Torga confunde-se com esse reino. Há nele essa dimensão de natureza frontal, em estado maciço que se apresenta como um universo a descobrir, uma fonte de vida e valores universais. Durante o mês, a ele voltaremos para divulgarmos uma obra única que nos faz compreender como somos herdeiros de um território e de uma identidade.
                                             (1) Miguel Torga, Diário XVI
                                    Imagem, Entre as serranias de Montesinho 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Lusco-fusco: livro da semana

Título: Lusco-Fusco
Autor: Cristina Carvalho

Edição: 1ª
Páginas:144
Editor:Sextante
ISBN:978-972-0-0744-6
CDU: 821.134.3-31"19/20"

Sinopse:
"Conheci gente que nunca pensei conhecer. 
Conheci os males da Terra, sítio onde me propus viver.
Voei no ar, mergulhei no mar, desequilibrei-me na terra, fervi no vulcão.
Fiz uma longa viagem.

Hoje de madrugada, ainda o dia era apenas uma pálida luz acinzentada, ainda esta terra não tinha começado a vibrar, Rocka levantou um voo rápido, subiu aos céus e desapareceu no meio de algumas estrelas ainda visíveis.    
Realmente, já não a vejo há uns milhões de anos mas ela prometeu voltar. Eu sei que volta.
Espero encontrá-la quando estiver para adormecer, quando estiver deitado na minha velha cama, neste meu quartinho que tem a tal claraboia por onde eu posso avistar o firmamento e sonhar.
Que era como eu fazia quando era pequenino".  

janeiro

Janeiro é um mês, quase inteiro,
de frio, chuva, nevoeiro.
Mas há um sol em Janeiro,
um sol discreto e fagueiro,
em raras manhãs de azul,
que sorri por entre o frio
e acende um pequeno braseiro
no coração mais sombrio.   

João Pedro Mésseder, O livro dos meses 
Imagem, in http://www.jungeunpark.com/main.html