quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - As trocas - As cidades invisíveis (VII)

Eufémia encontra-se no fim de uma planície de vento. Vêmo-la depois de  o vento mistral nos encaminhar a um porto de mar. Eufémia é uma cidade que reúne nações diversas, as de cada solstício e de cada equinócio. Eufémia é uma cidade portuária. A ela chegam navios com cargas diversas. Gengibre e algodão, sementes de papoila e sacos de noz-moscada passam pelos porões dos barcos que aportam a Eufémia

Estes homens de diferentes equinócios e solstícios percorrem distâncias, sobem rios, atravessam desertos para encontrar as mercadorias que em todos os bazares do Grão Kan existem. O que tem Eufémia então para oferecer que desperte os povos de tantas e diversas latitudes? 

Não é o comércio que atrai povos a Eufémia, mas sim o encontro junto das fogueiras que inundam o seu mercado e sobretudo a possibilidade de encontrar palavras. De cada palavra, "lobo", "irmã", "amor", cada um encontra uma história, a sua narrativa pessoal para dar substância e cor a cada uma dessas palavras. 

Os mercadores reunidos junto do fogo em Eufémia sabem que em cada viagem, em cada sopro do vento, em cada deserto atravessado, as nossas memórias transformam essas palavras em realidades. Como se falando de um lobo, aquele que é nosso se pudesse transformar noutro. Como se falando de uma irmã, dessa palavra e dessa memória reconstruida nascesse outra irmã. Como se, da batalha da nossa vida fosse possível nascer outra batalha, uma cidade invisível feita por nós. Eufémia é uma cidade de trocas, mas é antes disso uma cidade de memórias. As nossas.

A partir da leitura de Italo Calvino. (2011). As cidades invisíveis. Lisboa: Quetzal.
Imagens - Copyright: Collen Corradi

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - A subtileza - As cidades invisíveis (VI)

Zenóbia é uma cidade admirável. Está situada em terreno seco, mas surge erguida sobre grandes palafitas. As casas são de bambu e zinco e nelas se encontram muitas varandas de diferentes alturas. As casas em Zenóbia sobrepõem-se umas às outras e ligam-se por escadas e passeios que se encontram suspensos. O que terá conduzido os seus habitantes a dar esta forma à cidade de Zenóbia? Não se sabe a origem desta opção, desta face da cidade assim construída. Ninguém na cidade o sabe explicar. E, no entanto, pedida a descrição de uma cidade feliz, capaz de dar aos seus habitantes alguma felicidade eles sentem que a cidade só poderia ser assim, com as suas palafitas e com as suas escadas suspensas. Poderia ser uma cidade diferente, mas sempre com esta ideia original de casas suspensas. Poderíamos dizer que Zenóbia é uma cidade feliz? Não é correta esta divisão, entre felicidade e infelicidade. Mas antes, entre as cidades que se prolongam pelos anos e pelas suas próprias transformações no caminho para dar forma aos desejos dos seus habitantes e as outras cidades. Aquelas em que "os desejos ou conseguem aniquilar a cidade ou são elas aniquiladas". É essa a subtileza, a de procurar a concretização do sonho.

A partir da leitura de Italo Calvino. (2011). As cidades invisíveis. Lisboa: Quetzal.
Imagens - Copyright: Collen Corradi

Sugestões de leitura - Dia dos namorados

  

 


 
 (Algumas sugestões de leitura para este dia)

A vida humana (IV)

Queremos a Bonança

Já notaram que tudo o que acontece de bom é precedido por um período, não diria mau, mas menos bom? Depois da tempestade vem a bonança, é o que dizem. Nós queremos é a bonança.
Já paraste para pensar que só queres a bonança porque há uma tempestade? Quem sabe, talvez não houvesse bonança sem tempestade, ou nem sequer repararíamos na bonança se não vivessemos a tempestade. O tempo de festa é precedido por um tempo de abstinência, o tempo de vida é precedido por um tempo de sacrifício. O tempo de festa e de vida é o nosso real desejo, no entanto, um observador atento reparará que o tempo de sacrifício não é um mau tempo, aliás, encontrará nele algo profundo, essencial para preparar e viver o tempo de abundância. Se todos os tempos fossem de festa, acabaríamos por não valorizar nenhum tempo, todo o tempo seria igual, e perderíamos a alegria de viver.
Não digo para nos atirarmos de cabeça para os tempos de cinto apertado. Reparem que eles acontecem naturalmente.
A primeira estação do ano é o Inverno, que precede a Primavera.

 Madalena Quintela, ex-aluna

A palavra e o mundo - Viagens (I)

O senhor Nicolau e o senhor Mateus e Marco, filho do senhor Nicolau, caminharam tanto que chegaram junto do Grande Cã, numa cidade chamada Chemenfu, muito rica e grande. aquilo que encontraram no caminho não se conta agora, pelo que se contará mais tarde. Demoraram três anos a percorrê-lo devido ao mau tempo e aos rios, que transbordavam, quer de Inverno quer de Verão, e, por isso, não podiam cavalgar. quando o Grande Cã soube que os dois irmãos vinham, ficou muito satisfeito e mandou os mensageiros ao seu encontro quando faltavam ainda quarenta dias de viagem; e foram muito obsequiados e venerados. 

Quando os dois irmãos e Marco chegaram à grande cidade, foram ao palácio real, onde estava o Grande Cã com muitos fidalgos e ajoelharam-se diante dele, cumprimentando-o com a máxima reverência. Ele mandou-os levantar e mostrou muita alegria, e perguntou quem era aquele jovem que estava com eles. 

O senhor Nicolau disse: "Ele é vosso homem e meu filho". O Grande Cã disse: "Que ele seja bem-vindo, dá-me muito prazer". Entregues as cartas e privilégios que traziam do Papa, o Grande Cã ficou muito satisfeito, e perguntou como tudo lhes tinha corrido. "Senhor, bem, já que o encontrámos em esplêndido estado de saúde". Aqui houve uma grande alegria pela sua vinda e durante todo o tempo que permaneceream na corte tiveram maiores honras que qualquer outro barão.  

Uma história de amor - Pedro e Inês

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia

dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

 Nuno Júdice, ‘Pedro, lembrando Inês’

(Foi a nossa história de Romeu e Julieta, mas teve contornos mais simbólicos, porque envolveu uma dinastia, uma casa real e uma ideia de País. Uma lembrança para este dia dos Namorados 2017).

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - Os sinais - As cidades invisíveis (V)

O Homem está só. Caminha pelo natural e só raramente vê sinais de algo, como a pegada de um tigre, um fio de água, uma flor de hibisco. O mundo não se revela, apenas existe. No eixo do olhar mais distante surge uma cidade. Chama-se Tamara. A cidade anuncia-se em palavras, instruções em paredes, como notas informativas. Mas o visitante não se apercebe de nenhuma coisa, apenas encontra imagens de outras coisas que têm outros significados. Em cada objeto há uma imagem, são as imagens a dar significado às coisas. 

O quotidiano social é ilustrado por estas imagens, possibilidades e proibições. Os templos estão ornamentados por deuses, onde se encontram os seus atributos. Um Deus é reconhecido para que o fiel não se engane na sua divindade. Nesta cidade a arquitetura concebe uma ordem, uma função aos espaços. Tudo em Tamara vale pela função, pelos sinais encontrados em objetos, em espaços. São eles a construir os sinais das coisas e é com o olhar que o viajante vê a cidade como um livro de páginas decifradas. 

Tamara constrói um sentido à vida dos seus habitantes, diz-lhes o que pensar, o que é permitido, o que é proibido. Tamara é uma repetição de gestos e cada um dos nossos nomes é já uma repetição com que a cidade se define a si própria. O viajante não existe em Tamara. Fora dela é o vazio, dentro dela é "um invólucro de sinais", o que ela deixa compreender. Um viajante que saia de Tamara e encontre nas nuvens os desenhos dos objetos, o real feito uma casa, um veleiro, um animal não saberá que deixou a cidade que se fixa fora do horizonte.

A partir da leitura de Italo Calvino. (2011). As cidades invisíveis. Lisboa: Quetzal.
Imagens - Copyright: Collen Corradi