Espaço de partilha e divulgação das atividades da Biblioteca Escolar da Escola Secundária Rainha Dona Amélia
sexta-feira, 29 de abril de 2016
quinta-feira, 28 de abril de 2016
quarta-feira, 27 de abril de 2016
terça-feira, 26 de abril de 2016
Contos de cães e maus lobos - Livro da semana
Autor: Valter Hugo Mãe
Edição: 1ª
Páginas: 30 p.
Editor: Texto Editora
ISBN: ...
CDU: ...
Fui ver a minha nova estante logo pela manhã.
Era um bocado de espaço arranjado entre tralhas meio esquecidas. Fiquei ofendido. Os livros não esquecem nada. Eles são sempre a mesma memória admirável. Esquecer livros é uma agressão à sua própria natureza. Embora, na verdade, eles nem se devem importar, porque podem esperar eternamente. (...)
As histórias podem comer muitas palavras.
Pensei: os meus queridos livros. Era o que eu pensava e sentia: os meus queridos livros. Olhava-os como se estivessem vivos e pudessem sofrer. Como se pudessem também entristecer.
Gostei de colocar a hipótese de os livros serem como bichos. Isso faz deles o que sempre suspeitei: os livros são objectos cardíacos. Pulsam, mudam, têm intenções, prestam atenção. Lidos profundamente, eles estão incrivelmente vivos. Escolhem leitores e entregam mais a uns do que a outros. Têm uma preferência. São inteligentes e reconhecem a inteligência.
Os livros estão esbugalhados a olhar para nós. Quando os seguramos, páginas abertas, eles também estão esbugalhados a olhar para nós. (...)
A primeira vez que vi um livro, que me lembre, era um que estava aberto, pousado sobre a mesa, com as folhas em leque como se fossem uma colorida flor contente. (...) Depois, compreendi, era o modo silencioso das conversas. Todos os livros são conversas que os escritores nos deixam. Podemos conversar com Camões, Shakespeare ou Machado de Assis, mesmo que tenham morrido há tantos anos.
A morte não importa muito para os livros.
Mais tarde, aprendi que os livros acontecem dentro de nós. Claro que eles podem ser bonitos de ver, mas são sobretudo incríveis de pensar. Eu disse ler é como caminhar dentro de mim mesmo. E é verdade. Quando lemos estamos a percorrer o nosso próprio interior.
Uma menina do colégio perguntava-me sempre se eu queria brincar às coisas bonitas. Brincar de beleza, dizia assim. Era igual a ficarmos cheios de delicadezas a fazer de conta que adorávamos tudo: os puxadores velhos das portas, os livros de álgebra, as meias rendadas da professora, a sopa de beterraba à hora do jantar no refeitório ou o cão zangado do guarda nocturno. Servia de maneira divertida para fazermos de conta que o mundo era maravilhoso e, subitamente, o mundo inteirinho parecia mesmo maravilhoso. Isso era tão bom de sentir.
Valter Hugo Mãe. (2015). "O rapaz que habitava os livros". Porto: Porto Editora. 93-94.
Imagem: Copyright - Festival au fort d'aubervilliers.
Imagem: Copyright - Festival au fort d'aubervilliers.
Saramago - A substância da palavra
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O primeiro equívoco é pensá-lo como um escritor de
romances históricos, situação surgida pelo seu primeiro êxito - Memorial do
Convento. José Saramago não escreveu romances históricos, no sentido de
devolver a respiração de uma sociedade, de um conjunto social e cultural.
Memorial do Convento é uma obra de fição sobre um tempo específico do passado,
dando-lhe o autor uma perspetiva do seu próprio conhecimento e da sua análise do
presente. Memorial do Convento é uma oportunidade para conhecer o que pensa
Saramago sobre como as sociedades se transformam e neste caso a da 1ª metade do
século XVIII. Em José Saramago, a História não é apreendida como uma certeza
credível, sendo muitas vezes considerada como uma fantasia, na medida em que
ela muda conforme as dimensões do tempo e na perspetiva das ações
concretizadas por diferentes pessoas.
Em O ano da morte de Ricardo Reis não volta
a escrever um romance histórico e medita entre um fascínio sobre a
racionalidade deste heterónimo de Pessoa e um certo desconforto por esta ideia de
satisfação pelo espetáculo do mundo. Neste sentido, coloca o ano de 1936 como
pano de fundo e procura interrogar-nos sobre a crise das consciências e o
nascimento dos autoritarismos na Europa. É uma convocação para nos
interrogar, tendo como cenário, a desordem humanitária dos fascismos europeus. É uma interrogação, a de verificar, se ainda seria possível escrever odes sobre as quais nos sentimos sábios.
Com A História
do Cerco de Lisboa, o livro onde foi mais longe na interrogação do espelho da
História, e onde cruzou espaços temporais diferenciados, o século XII e o
século XX. Nele, discute os limites da “verdade histórica”, numa narrativa que nos
devolve o homem comum, o que muitas vezes não se ouve nas narrativas da História.
Com A História do Cerco de Lisboa, José Saramago procurou dar-nos a discussão da
possibilidade de se escrever a História do Tempo Longo e essa é uma das suas
marcas como escritor. Apresenta, num tempo conjuntural, a discussão do que é
permanente nas sociedades, e de como o que vivemos e construímos vive desta
combinação, de atitudes e valores de diferentes figuras.
Aquilo que José Saramago considerou ser o âmago da
pedra, a carne e o sangue por que lutamos em si, fê-lo evoluir para um tipo de
literatura que colocou questões sobre valores importantes, interrogando-nos sobre
o que somos, que valores e preconceitos veiculamos e porque o fazemos. A abordagem de temas que tocavam crenças de muitas pessoas criaram-lhe
dificuldades. São romances desta fase, O
Evangelho segundo Jesus Cristo, O Ensaio sobre a Cegueira ou Todos os Nomes. No
Livro das Tentações, ou No Homem Duplicado, revemos a restauração da ideia que
nos devolve à pedra essencial de que somos feitos em estreita ligação ao mundo
material e à nossa memória.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Celebrar a casa da Humanidade - O Planeta Terra
Olhamos muito, mas vemos pouco, ouvimos sem compreender os sons e as cores mais nítidas. Para compreender o azul mais puro é preciso reconhecer a sua beleza, o seu valor como património essencial à vida e à humanidade. O Dia da Terra é um alerta para a ignorância de que somos feitos, de um pensamento com pouca emoção, com pouca sensibilidade para o que nos rodeia.
Imagens
(1-4), in http://www.nasa.org/
(5-6) - Entre os braços de São Miguel - Açores
Dia da Terra 2016
"A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão
Ulisses rei de Ítaca carpeinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado." (1)
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É pois um dia para despertar os que ainda não compreenderam a sacralidade da natureza, a nossa dependência dos seus fluxos vitais, o seu arquivo das nossas memórias para uma organização social com sentido. Na medida em que ao Homem ainda não parece suficiente toda a destruição causada, com consequências sobre a qualidade de vida de milhões da espécie humana, olhemos para a Terra, a sua beleza indescritível e aquilo que futuras gerações poderão perder, um Planeta grandioso e fascinante. E o convite a que saibamos estabelecer novos padrões para a manutenção da qualidade da água e do ar e para a sobrevivência de muitos milhões de pessoas que vivem as dificuldades de uma utilização desajustada e irracional do Planeta.
Sophia, "O rei de Ítaca", in O nome das coisas, página 42.
Imagens, in http://www.earthday.org/2015Purple rain
I never meant to cause you any sorrow
I never meant to cause you any pain
I only wanted one time to see you laughing
I only want to see you laughing in the purple rain
purple rain, purple rain
I only want to see you bathing in the purple rain
I never wanted to be your weekend lover
I only wanted to be some kind of friend
baby I could never steal you from another
it's such a shame our friendship had to end
purple rain, purple rain
I only want to see you underneath the purple rain
honey, I know, I know, I know times are changing
it's time we all reach out for something new, that means you too
you say you want a leader,
but you can't seem to make up your mind
I think you better close it
and let me guide you into the purple rain
purple rain, purple rain
I only want to see you, only want to see you
in the purple rain
Prince, Purple Rain, 1984
Capa - Bob Staake, "Purple Rain", The New Yorker (http://www.newyorker.com/culture/culture-desk/cover-story-2016-05-02)
I never meant to cause you any pain
I only wanted one time to see you laughing
I only want to see you laughing in the purple rain
purple rain, purple rain
I only want to see you bathing in the purple rain
I never wanted to be your weekend lover
I only wanted to be some kind of friend
baby I could never steal you from another
it's such a shame our friendship had to end
purple rain, purple rain
I only want to see you underneath the purple rain
honey, I know, I know, I know times are changing
it's time we all reach out for something new, that means you too
you say you want a leader,
but you can't seem to make up your mind
I think you better close it
and let me guide you into the purple rain
purple rain, purple rain
I only want to see you, only want to see you
in the purple rain
Prince, Purple Rain, 1984
Capa - Bob Staake, "Purple Rain", The New Yorker (http://www.newyorker.com/culture/culture-desk/cover-story-2016-05-02)
Prince... Por vezes neva em abril...
Tonight we still might kiss the stars... see you soon... all of us ar just faces in the wind...
Tracy morreu logo após uma longa guerra civil
Logo após eu ter enxugado suas últimas lágrimas
Eu acho que ele está bem melhor do que antes
Bem melhor do que os tolos que deixou para trás
Eu costumo chorar por Tracy, pois ele era meu único amigo
Daquele tipo que a gente que não se encontra com facilidade
Eu costumo chorar por Tracy, pois queria vê-lo novamente
Mas às vezes, às vezes a vida não é sempre como gostaríamos que fosse...
Logo após eu ter enxugado suas últimas lágrimas
Eu acho que ele está bem melhor do que antes
Bem melhor do que os tolos que deixou para trás
Eu costumo chorar por Tracy, pois ele era meu único amigo
Daquele tipo que a gente que não se encontra com facilidade
Eu costumo chorar por Tracy, pois queria vê-lo novamente
Mas às vezes, às vezes a vida não é sempre como gostaríamos que fosse...
Ás vezes neva em abril
Às vezes eu me sinto tão para baixo, tão para baixo
Às vezes eu gostaria que a vida nunca tivesse um fim
Tudo que é bom, dizem, nunca dura
Tudo que é bom, dizem, nunca dura
E o amor não é amor até que se torne uma lembrança(...)
Às vezes eu me sinto tão para baixo, tão para baixo
Às vezes eu gostaria que a vida nunca tivesse um fim
Tudo que é bom, dizem, nunca dura
Tudo que é bom, dizem, nunca dura
E o amor não é amor até que se torne uma lembrança(...)
Eu sempre sonho com o paraíso e sei que Tracy está lá
Eu sei que ele encontrou um outro amigo
Talvez ele tenha encontrado a resposta para toda a neve que cai em abril
Talvez um dia eu veja Tracy novamente
Prince - Sometimes it snows in April
https://www.youtube.com/watch?v=OaL4DCseY4Y
Eu sei que ele encontrou um outro amigo
Talvez ele tenha encontrado a resposta para toda a neve que cai em abril
Talvez um dia eu veja Tracy novamente
Prince - Sometimes it snows in April
https://www.youtube.com/watch?v=OaL4DCseY4Y
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Pogroms de Lisboa
"Ontem , por volta do meio-dia, bateram à porta aqui na nossa casa e fui ver quem era. (...). Num tom hesitante,entrecortado, perguntou em português: « Acaso tenho a honra de falar com Mestre Berequias Zarco?»
- Assim é, meu rapaz- respondi-. E tu poderás dizer-me com quem falo?
Curvando-se numa vénia, respondeu: « Lourenço Paiva. Cheguei agora mesmo de Lisboa e vinha com esperança de vos encontrar.» Murmurando aquele nome para mim próprio, recordei-me ser ele o filho mais novo da velha amiga cristã, a lavadeira a quem tínhamos deixado a nossa casa em Lisboa momentos antes de fugirmos daquela cidade tenebrosa, há mais de duas décadas".
- Assim é, meu rapaz- respondi-. E tu poderás dizer-me com quem falo?
Curvando-se numa vénia, respondeu: « Lourenço Paiva. Cheguei agora mesmo de Lisboa e vinha com esperança de vos encontrar.» Murmurando aquele nome para mim próprio, recordei-me ser ele o filho mais novo da velha amiga cristã, a lavadeira a quem tínhamos deixado a nossa casa em Lisboa momentos antes de fugirmos daquela cidade tenebrosa, há mais de duas décadas".
A literatura tem muitas vezes a capacidade de recolocar os acontecimentos da História dando-lhes uma respiração mais humana, mais próxima do que significam vividos pelas pessoas. Richard Zimler tem a grande qualidade de escrever livros com integração da investigação de acontecimentos do passado, mas preocupando-se com que eles significaram para pessoas isoladas, vítimas do sofrimento que a ignorância e o poder político são tão rápidos em construir.
O último cabalista é a reconstrução doa contecimentos vividos em Lisboa no reinado do "venturoso" rei D. Manuel, onde centenas de judeus morreram sugestionados por um poder político que não respeitou o acordado em 1497, aquando da conversão à religião cristã. Expulsos pelos reis católicos acreditaram ter em Portugal uma possibilidade de vida. Forçados à conversão são acusados de serem os responsáveis pela fome, pela peste e pela seca que existia no reino. Instigados por frades dominicanos, uma multidão com a complacência da corte destruiu vidas humanas. Mais uma vez o condicionamento na estrutra do estado e da sociedade, entre as promessas de Castela, a moral de Roma e a inexistente moralidade cristã.
Toda a história do judaísmo e da perseguição que a Inquisição faria mais tarde, noutra assunção de medo e de estratégia política com D. João III, ele revela muito da falta de consistência de valores que uma soberania política não soube compreender pelo valor humano, institucional e cultural que os judeus trouxeram ao Reino.
A sua perseguição e morte levou à perda de recursos humanos e de ideias que teriam dado outras possibilidades de desenvolvimento. O último calaista de Lisboa retrata um episódio que a História dada nas escolas não integra e que merece ser estudada, de modo a que se perceba que a História de Portugal é muito mais do que a ideia que uma certa historiografia gosta de apresentar, um conto de fadas da memória.
O último cabalista é a reconstrução doa contecimentos vividos em Lisboa no reinado do "venturoso" rei D. Manuel, onde centenas de judeus morreram sugestionados por um poder político que não respeitou o acordado em 1497, aquando da conversão à religião cristã. Expulsos pelos reis católicos acreditaram ter em Portugal uma possibilidade de vida. Forçados à conversão são acusados de serem os responsáveis pela fome, pela peste e pela seca que existia no reino. Instigados por frades dominicanos, uma multidão com a complacência da corte destruiu vidas humanas. Mais uma vez o condicionamento na estrutra do estado e da sociedade, entre as promessas de Castela, a moral de Roma e a inexistente moralidade cristã.
Toda a história do judaísmo e da perseguição que a Inquisição faria mais tarde, noutra assunção de medo e de estratégia política com D. João III, ele revela muito da falta de consistência de valores que uma soberania política não soube compreender pelo valor humano, institucional e cultural que os judeus trouxeram ao Reino.
A sua perseguição e morte levou à perda de recursos humanos e de ideias que teriam dado outras possibilidades de desenvolvimento. O último calaista de Lisboa retrata um episódio que a História dada nas escolas não integra e que merece ser estudada, de modo a que se perceba que a História de Portugal é muito mais do que a ideia que uma certa historiografia gosta de apresentar, um conto de fadas da memória.
terça-feira, 19 de abril de 2016
O gueto de Varsóvia - a coragem
"Shuddering I shall cry:
what for and why
did my people die?"
(Itzhak Katzenelson- I Had a Dream) - (1)
what for and why
did my people die?"
(Itzhak Katzenelson- I Had a Dream) - (1)
É uma história amarga, a maior delas. É uma narrativa impossível de explicar, pois não há nela nenhuma racionalidade, apenas a emoção que uma selvajaria animal ainda se faz transportar dentro de algo humano, uma humanidade clonada de formas sem espírito. Passou-se ao som de criações elevadas da capacidade de sublimar a vida, a música, a arte e a literatura.
É uma história mil vezes repetida, mas nunca a percebemos verdadeiramente, nunca soubemos explicar porque a morte de milhões de pessoas pode ser uma alegria, uma sinfonia de vontades vitoriosas e na verdade nunca aprendemos do pouco que vemos, pois residem entre nós, nas coloridas televisões, nas radios de risos de plástico a construção por tózés do pensamento dizendo-nos que a memória é uma ocupação de falhados, não suporta o utiliatarismo que os novos iluminados habitam no conforto dos gadgets sem ideal humano.
Mas façamos um esforço, reconheçamos a esta meia dúzia de sonhadores o seu grito e o seu exemplo. O da palavra contra a violência, a explicação, o olhar que procura conhecer, o do testemunho para que se saiba se conheça, pela poesia, pela crónica, pelas imagens, pelas narrativas. E o seu grito final o de quem compreendeu que o impossível por ser humanamente inconcebível pode ser uma opção dos que vivem com os olhos na morte.
Após dois mil anos de sujeição, de incompreensão, alguns judeus perceberam que apenas lutando poderiam gritar o que sentiam, e tentar, apenas tentar mudar a sorte talhada nos campos de extermínio a que uma sociedade alemã, promessa de um desenvolvimento económico decidia encolher os ombros. Não dizia Heiddeger, o filósofo da emanência do ser que "as mãos de Hitler eram de uma beleza insuperável"?
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Fazem hoje setenta e um anos sobre esse levantamento no gueto de Varsóvia e essa luta de grandeza pela dignidade humana. É possível conhecer esta luta e o que foi a vida no gueto de Varsóvia, naquilo que foi o trabalho desenvolvido pelo historiador Emmanuel Ringelblum e que permitirira mais tarde criar o Holocaust Research Project. Pela sua vertente pedagógica e informativa, também de grande relevo o United States Holocaust Memorial Museum.
Darwin e as Ciências - campos de alargamento
"No futuro distante, vejo campos abertos para pesquisas muito mais importantes. A psicologia será baseada num novo fundamento, baseado na necessária aquisição de cada poder e capacidade mental via gradação. Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história."
Charles Darwin, em A Origem das Espécies, 1859
Charles Darwin é possivelmente o maior pensador do século XIX, pois formulou uma teoria que mudaria o modo como vemos a vida, o universo dando grandes contributos para o alargamento da Ciência com o surgimento progressivo de nos campos do conhecimento. Publicado a vinte e quatro de novembro de 1859, Sobre a origem das Espécies através da selecção Natural, ou a Preservação das Raças favorecidas na luta pela Vida (o seu título completo) foi a mais importante publicação de Darwin. Teve um enorme sucesso imediato e criou uma significativa polémica no campo civil e religioso.
O livro deu um contributo extraordinário para o mundo cultural, pois trazia abordagens novas sustentadas por dados. As críticas ao livro fundamentavam-se na ideia de que todos os seres vivos tinham origem em processos inteiramente naturais. Neste sentido o livro abalava os fundamentos da sociedade, pois desafiava todas as concepções anteriores sobre os seres vivos e foi o embrião para as transformações culturais e sociais que ocorreram no Ocidente durante Oitocentos. Num certo sentido o sentido moral e ideia divina de séculos anteriores perder-se-iam às portas do século XX e nesse sentido é uma obra de referência.
As suas ideias acabaram por ser aceites pela comunidade científica e pelas pessoas de um modo geral. A teoria da selecção natural parecia encontrar na realidade formas de a aceitar. Na década de 30 do século XX a teoria estava já plenamente aceite. A partir dela nasceu a a teoria evolucionista. A Biologia ao explicar a diversidade da vida acaba por ser devedora das ideias de Darwin. A importância de Darwin foi ter permitido alargar outros campos do conhecimento. Além das Ciências Biológicas, áreas como a Antropologia ou a Psicologia. Abriu possibilidades de ver o Ambiente e a Terra como um espaço em evolução.
Alguns viram nas ideias de Darwin uma incapacidade de responder satisfazer a todas as questões que a Bioquímica trouxe. As complexas funções químicas e biológicas do Homem poderiam ser explicadas apenas a partir de um passado evolutivo? Michael Behe, em A caixa negra de Darwin acredita que não. Os criacionistas têm procurado mostrar algumas limitações da teoria da Evolução. É o campo de análise entre Ciência e Fé. É evidente, todavia que a selecção natural é um pilar da Biologia, pois a resistência das bactérias, ou a evolução das florestas a efeitos de aquecimento global estão presentes. O próprio sistema global da Terra, o seu clima de que Al Gore tem falado é um elemento de alargamento desta teoria.
O nosso mundo económico vive igualmente das suas ideias, pois quando se protegem empresas de fechar não se está a contrariar a selecção natural e a diminuir a possibilidade de desenvolvimento da sociedade?
A questão da evolução a partir de um ancestral comum parece evidente e confirmada pelos estudos de DNA. A pergunta que importa responder é a seguinte: estará a espécie humana ainda em evolução e será esta selecção natural integradora de características físicas do homem, ou incluirá também aspectos comportamentais? É uma pergunta para o futuro que nos conduz ao valor significativo da obra de Charles Darwin.
Memória de Darwin
A 19 de
abril de 1882 celebra-se a memória de Charles Darwin, um naturalista e biólogo
inglês que revolucionou o modo como o século XX viria a ver o mundo. Desde cedo
Darwin revelou um grande interesse pelos fenómenos naturais. Contactou com naturalistas e com as temáticas da Botânica e da Geologia quando estudou Teologia. A 27 de dezembro de 1831 participou numa expedição à volta do mundo realizado pelo navio de nome Beagle. Durante cinco anos observou fósseis e recolheu amostras da natureza em diferentes locais.
A partir da sua observação
construiu uma nova teoria explicativa do mundo natural. A sua teoria ficou
expressa no livro A Origem das Espécies, criando desde a sua publicação uma
imensa polémica pelas respostas que apresentava. Seria, no entanto, o seu
segundo livro, A Origem do Homem que Darwin iria concretizar melhor as suas
ideias de que o Homem tinha realizado um processo de evolução a partir de um
antepassado comum. Poucos homens
influenciaram o conhecimento e a Ciência como Charles Darwin.
Em 1872 publicaria o seu último livro, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, onde procurou mostrar que o corpo e também a mente sofreram um longo processo de evolução. Darwin reformulou, ou podemos mesmo dizer reinventou a Natureza, no sentido em que abriu campos novos. O Evolucionismo, teria grande impacto na formulação de outras Ciências. Da Biologia, à Medicina e à Antropologia ele fez avançar a Ciência, que mais não é que a procura racional de compreender o mundo e os seus fenómenos. O campo científico contemporâneo é-lhe devedor na formulação do seu próprio pensamento.
As suas ideias levantaram um coro
de protestos na sociedade vitoriana. Os fundamentos da sociedade burguesa
pareciam levar aqui mais um forte choque. A Igreja foi especialmente dura, pois
como séculos antes com Galileu, a abertura de novos horizontes ameaçava
a segurança do que se conhecia, do que estava estabelecido. Os primeiros anos
do século XX e o seus conflitos mortais evidenciaram a natureza humana de
uma forma que as ideias de Darwin e de outros, como Freud, viriam a confirmar
da pior maneira.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Encontro - "As ondas gravitacionais"
Há momentos que não se descrevem. Experimentam-se, absorvem-se e ficam como uma experiência de quase epifania. Foi o que aconteceu hoje na sala de audiovisuais com três elementos do Departamento de Física do Instituto Superior Técnico.
Um professor e dois alunos (um mestrando e um doutorando) apresentaram uma palestra sobre as ondas gravitacionais. Souberam falar com extrema simplicidade de um assunto complexo. Deram aos presentes a motivação para olhar para o Universo, tentar ouvir os seus sinais, de modo a que cada vez mais nós o possamos compreender.
De um modo simples os presentes compreenderam o que são ondas gravitacionais. Perceberam que são essencialmente deformações no tecido espaço-tempo, que Einstein tinha já previsto na Teoria da Relatividade Geral. A geometria do universo pode ser distorcida por uma grande massa, sendo que essa curva construída seria a própria gravidade. Foram revelados testes feitos nos Estados Unidos ao nível da exploração das partículas que de um modo experimental comprova a teoria de Einstein. Foi um momento brilhante, com uma boa participação dos alunos.
Memória de uma estrela cintilante
"...faço também parte de uma geração que, na Europa, na América, e noutras partes do mundo, quis levar a ciência para a rua, levar a experimentação para a escola, trazer a argumentação científica para dentro dos debates de sociedade e para a decisão política democrática. " (Análise social, 2011)
José Mariano Gago, foi um exemplo. José Mariano Gago foi um cientista que nos deu a ciência como suporte de formação no nosso quotidiano, o das escolas e o das pessoas. José Mariano Gago foi um ser humano acima das pequenas palavras, que desbravou formas de estimular a Ciência como forma de conhecer o mundo e as pessoas. Nessa atitude de desbravamento ousou criar possibilidades entre as barreiras dos pequenos espíritos.
José Mariano Gago é uma daquelas raras pessoas que a "política" tem em milénios de uso. José Mariano Gago estudava a ciência como forma de todos podermos participar como comunidade. José Mariano Gago superou em galáxias de distância os pequenos gestos que vemos em tantos dias em políticas de marginal grandeza.
José Mariano Gago foi o canto de cisne de uma cultura democrática perdida tantas vezes em palavras sem substância. Ele foi um exemplo do que poderíamos ser, se percebêssemos o valor da educação e do conhecimento para construir futuros. Foi, como disse o Miguel Esteves Cardoso, um herói, um homem bom. Um cientista que chegou à governação para dar um contributo positivo à ciência e foi por isso um benfeitor. A política neste País não é servida por exemplos destes. Vejamos nele alguém que nos ensinou o essencial.
Aguardemos e lutemos para que a intervalos intermitentes, o seu espírito desça a vontades dignas de uma comunidade que se sabe pensar e existir em decência e grandeza de espírito. Partiu há um ano e é uma memória da nossa melhor forma de ousar pela imaginação novas fronteiras a descobrir. Obrigado José!
A tartaruga de Darwin - Livro da semana
Título: Henriqueta, a tartaruga de Darwin
Autor: José Jorge Letria
Edição: 1ª
Páginas: 30 p.
Editor: Texto Editora
ISBN: 978-972-47-3827-7
CDU: 821.134.3-93"19/20"
Sinopse:(...) A sua teoria, aquela que eu e outros animais como eu ajudaram a ganhar forma na cabeça desse homem genial, pode resumir-se desta maneira: os indivíduos reproduzem-se dando origem a outros indivíduos semelhantes, mas não exactamente iguais aos pais que os geraram. Assim existe continuidade da espécie, mas também variedade. Entretanto, o processo de selecção natural faz com que os mais bem adaptados ao ambiente se reproduzam mais, deixando maior descendência e estando melhor preparados para sobreviver. este princípio é válido para todas as formas de vida na Terra, incluindo a humana. Deste modo, Charles Darwin defendeu a ideia de que os seres humanos são apenas uma espécie entre outras espécies e não foram criados nem escolhidos por Deus para nenhuma missão especial.
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Trabalhou praticamente até ao final da vida. Um dos trabalhos que mais gostou de escrever, já com bastante idade, dizia respeito a uma das flores que mais apreciava: a orquídea. De tudo isto fui tendo notícias, de muitas maneiras, na paz da minha vida australiana. Também tive notícias de duas guerras mundiais e de muitas outras que mataram mais seres humanos do que as maiores epidemias da História. E dei por mim a pensar que o mundo podia ter sido muito mais pacífico e tolerante se os seres humanos tivessem reflectido sobre o modo de fazerem o bem e não o mal.
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Como ninguém sabe o que se passa para além deste mundo terreno em que todas as espécies coabitam, é bem possível que Henriqueta e Charles Darwin já se tenham encontrado algures, entre nuvens, estrelas e cometas, e tenham dito um ao outro, numa linguagem de afectos que pode dispensar as palavras:
- Aqui estamos outra vez juntos, mas agora para a eternidade.
Se Darwin e a tartaruga Henriqueta alguma vez se encontraram nas andanças deste mundo, não é uma questão de verdade científica. É sim uma questão de imaginação, e essa imaginação pode não ter limites se tu assim o desejares. É também para isso que os escritores escrevem livros e os leitores lhes acrescentam vida enquanto os lêem e dão ao que neles encontram escrito todos os sentido e interpretações que muito bem entendem. É, afinal, essa a tua liberdade". (páginas 28 e 30).
segunda-feira, 11 de abril de 2016
O tempo - esse grande escultor: Livro da semana
Título: O tempo - esse grande escultor
Autor: Marguerite Yourcenar
Edição: 1ª
Páginas:220
Editor: Editorial Presença
ISBN: 972-29-0562-7
CDU: 821.133.1-4"19
Sinopse: "Acordo. Que disseram os outros? Aurora que, cada manhã, reconstróis o mundo; integral nos braços nus que conténs o universo; juventude, aurora do homem. Que me importa o que outros disseram, o que acreditaram. Sou Febo del Poggio, um bobo. Os que falam de mim dizem que sou pobre de espírito; talvez nem tenha espírito. Existo como um fruto, como um copo de vinho, como uma árvore. Quando vem o Inverno, as pessoas afastam-se da árvore que não dá sombra; comido o fruto, deitam fora o caroço; vazio o copo, vão buscar outro. Eu aceito. Verão, água lustral da manhã sobre membros ágeis; ó alegria, orvalho do coração...
Acordo. Tenho diante, atrás de mim, a noite eterna Eu dormi milhões de idades; milhões de idades eu vou dormir... Só tenho uma hora. Havia de estragá-la com explicações e com máximas? Estendo-me ao sol, sobre o travesseiro do prazer, numa manhã que não voltará mais". (1931) - (1)
Há palavras e formas de descrever o que vivemos em tantos tempos do passado e em tantos sonhos do futuro que ficamos apenas deslumbrados, como quando observamos um pôr-do-sol ou a luz prateada da lua nas ondas nocturnas da praia. Marguerite Yourcenar é uma dessas vozes sem tempo, onde as palavras se fazem de inteligência, sabedoria e beleza.
Em O Tempo, esse grande escultor, reúnem-se um conjunto de artigos que reflectem sobre arte, história, cristianismo, natureza, pintura, ou diversas reflexões sobre o Oriente. Textos publicados desde os anos trinta e os anos oitenta em diferentes publicações e que são aqui reunidos. Livro já com alguns anos, a que vale a pena voltar para redescobrir como o tempo molda tudo, as pessoas, os seus gestos, a sua compreensão e os próprios artefactos da matéria.
Em O Tempo, esse grande escultor vemos os significados dos movimentos da natureza e o modo como os integramos numa vida cultural e social. Percebemos como as civilizações criam rituais de significado e como somos peças intermitentes de uma aventura. Aventura de humanidade que o tempo marca e que apenas podemos compreender e levantar como um sonho. Aquele que deixamos pela nossa passagem.
(1) - Marguerite Yourcenar. (1984). O tempo, esse grande escultor. Lisboa: Difel, p.23.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
A cidade e as palavras - Autor do mês - José Saramago
Tempo houve em que Lisboa não tinha nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147 depois de um cerco de três meses, os mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…
Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as coisas.
Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.
O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que freqüentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.
Talvez não seja possível falar de uma cidade sem criar umas quantas datas notáveis da sua resistência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o passado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de autocomplacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.
Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje.
Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada, sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.
José Saramago, in O Caderno, Lisboa, Caminho, 2009
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