segunda-feira, 24 de abril de 2017

A palavra e o mundo - Alice no País das Maravilhas (I)

Alice no País das Maravilhas é uma narrativa intemporal. Não é exagerado dizer que nele Lewis Carroll conseguiu transmitir-nos o seu fascínio pela infância, por essa delicadeza, por onde o valor das crianças na sociedade começava a ser reconhecido com mais significado. Ela é o resumo essencial de um tempo mágico, de memória de um tempo, onde ele não existe no sentido da sua finitude. O tempo de Alice é o de todas as possibilidades, o real como uma aventura permanente. 

Alice viaja por um tempo de fantasia, olhando para o que ama, procurando dias felizes e limpos, cheios de descobertas. Não há outra personagem como Alice, no mundo infantil. A sua criação por Lewis Carroll é um ponto de eternidade num País onde vivemos um dia e ao qual podemos tentar voltar com imensas dificuldades. 

Na verdade sabemos que as figuras que habitam com Alice não voltam, permanecem num território único e maravilhoso, o País das Maravilhas. Mesmo com o serviço da imaginação todos sabemos que os unicórnios que saltavam em corridas infinitas na floresta já não voltam. A Ilustração de Alice no País das Maravilhas é de uma dimensão quase infinita, pois o seu unniverso entrou no imaginário cultural da Europa e do Mundo há longa data. De algum modo a lustração criou outras tantas formas de ver Alice. Aqui deixamos algumas.

(Charles Folkard, 1929) 
(Abelardo Morell, 1999)
 (Edwin John Prittie, 1923)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A palavra e o mundo - Alice do outro lado do Espelho (I)

Estás a ouvir a neve a bater nos vidros da janela, Kitty? Como é agradável e suave o som que faz! É como se alguém lá fora estivesse a encher a janela toda de beijos. Eu bem queria saber se a neve gosta mesmo das árvores e dos montes, pois são tão suaves os beijos que lhes dá! E depois cobre-os com tanto cuidado, sabes... como uma colcha branca, e talvez diga assim: "Vamos dormir, queridos, até vir o Verão outra vez." E quando acodam, no Verão, Kitty, vestem-se todos de verde e põem-se a dançar... sempre que houver vento... Oh, como deve ser lindo! - exlamou Alice, deixando cair a meada de lã para bater palmas. - Como eu gostava que isso fosse verdade! Tenho  certeza de que no Outono as florestas têm um ar cheio de sono, logo que as folhas começam a ficar castanhas.

Sob o luminoso céu, num sonho, 
 Desliza o barco, vagarosamente. 
Era uma tarde de Julho...

Abraçadas, três crianças 
De olhar brilhante, ouvido atento, 
Felizes, escutavam ingénua história.

Empalideceu já o luminoso céu, 
Perderam-se as vozes e as lembranças,
Geadas outonais invadiram o calor do Verão.

Outras crianças escutarão ainda 
Esta história, de olhar brilhante, ouvido atento, 
Amorosamente abraçadas.

Viajando no Mundo das Maravilhas, 
Esquecidas dos dias que passam, 
Esquecidas dos Verões que morrem.
Deslizam na onda, sonham, 
Demorando-se no brilho da Luz.... 
Ea vida, o que é, senão um sonho?

Lewis Carroll. (2010). Alice do outro lado do espelho. Lisboa: Publicações Europa-América

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Abril


É um mês de muitas possibilidades. É um recomeço a construir um pensamento livre, como uma circunferência de giz a imaginar detalhes de um sonho.  É um mês de promessa, o do Verão a sobrar de dias ainda pouco quentes, de uma luz de cor de mar, ou de céu de montanha. É um mês de livros, a declamar palavras em ruas de chuva, a sonhar com o mês das rosas.
É Abril, um mês a imaginar um pensamento, como aves penduradas no vento. 
Um bom recomeço a todos!
Contemplava a própria vida
na sorte desses instantes
que tanto se assemelham a furtivos lírios
à chegada da noite
mas dizia: um coração é sempre um pássaro
evadido à censura da penumbra

nenhum sofrimento conseguia desfazer
as muitas exaltações que mantinha
e mesmo à beira do abismo
exibia uma facilidade talvez sem razão

quando a arte das chamas se tornou
nas cidades uma ciência ameaçada
percebemos que há muito nos falava
do interior das florestas

José Tolentino Mendonça. (2010). “Furtivos lírios”, in Baldios. Lisboa: Assírio & Alvim.
Imagem (Via Dias com Árvores) -  Vicia latyroides, ou Ervilhaca-miúda: na confluência do rio Sabor e Maçãs (Terra Quente - Trás-os-Montes), um dos que foi um dos últimos rios selvagens da Europa, antes do empreendorismo do regime.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A Farsa de Inês Pereira (III)

A Escola foi ao teatro ver a Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente. O texto dramático apreciado ao vivo oferece espaço para outras leituras e opiniões...
A Farsa em Teatro

No dia 25 de janeiro, tivemos o prazer de visionar uma peça intitulada Farsa de Inês Pereira, escrita por Gil Vicente em meados do séc. XVI, da qual tínhamos analisado grande parte em contexto de sala de aula.
A representação foi encenada por Maria do Céu Guerra e teve como atriz principal Carolina Parreira, representando Inês Pereira, a moça “singela” e sonhadora.
Em resumo, a obra relata-nos a história de uma rapariga que tinha o desejo de se casar de modo a libertar-se das tarefas doméstica a que a sua mãe autoritária a obrigava.  Inês foi apresentada a dois homens,  rejeitando o primeiro pelo seu estatuto social e por ser desajeitado (Pêro Marques) e aceitando casar com o segundo pelo seu estatuto social e por ser “discreto”. Este casamento não decorre como esperava, o primeiro morre, Inês fica viúva e reconsidera a sua primeira opinião, casando agora com Pêro Marques. Gil Vicente cumpre assim o mote que lhe foi dado- (“Mais vale asno que me leve, que cavalo que me derrube”).
Na minha opinião, a peça que tivemos oportunidade de ver está extremamente bem conseguida, apesar da inexperiência que alguns atores poderiam ter, tornando a obra interessante, não só porque recorre ao cómico e à sátira contundente (característica da Farsa) como também à interação público-ator, diversas vezes, contribuindo para uma maior e melhor aprendizagem dos conhecimentos da obra. Além disso, o facto do cenário ser sempre o mesmo reflete-se como um aspeto negativo, podendo, no meu entender, ter sido mais elaborado. Por outro lado, o jogo de luzes que marcava a passagem da noite para o dia foi brilhante e surpreendente, pois através de um recurso tão simples conseguiram criar o efeito pretendido.
Em conclusão, o visionamento da peça foi, globalmente, enriquecedor e produtivo para a aprendizagem, motivado pela capacidade de cativar a atenção revelada pelos atores. Sinceramente, aconselho vivamente este espetáculo no Teatro “A Barraca”.

A Farsa de Inês Pereira (II)

A Escola foi ao teatro ver a Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente. O texto dramático apreciado ao vivo oferece espaço para outras leituras e opiniões...

Apreciação crítica

“Rindo, corrigem-se os defeitos da sociedade”

No passado mês, o décimo ano deslocou-se ao teatro “A Barraca” onde assistiu a “A Farsa de Inês Pereira”.
Escrita por Gil Vicente no século XVI, e representada pela primeira vez em Tomar, é uma comédia de costumes que satiriza a sociedade quinhentista.
Este aspeto satírico está também presente em, por exemplo, o “Auto da Barca do Inferno” no qual, de forma humorística, Gil Vicente nos dá a conhecer o declínio de valores da época.
Tendo como mote “mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube”, esta Farsa conta a história de uma jovem ambiciosa e sonhadora, no papel de Carolina Parreira, que pretende ascender socialmente através do casamento. É nesta escolha de pretendentes –entre o “asno” simplório e o “cavalo” galante que se centra a ação desta divertida peça.
Através das esfusiantes situações de conflito e de cómico, por exemplo, entre Inês e Pêro Marques, ficamos a conhecer cenas da vida daquela época, como a vida doméstica ou os casamentos combinados, algo tão diferente dos nossos dias.
Está particularmente bem conseguida a interação entre os atores e o público, que tem oportunidade de participar na ação.
Embora parcos, os cenários são eficazmente complementados por um interessante jogo de luzes, a cargo de Paulo Vargues, que nos indica, por exemplo, a transição das várias horas do dia.
Além de divertida, esta peça tem um grande valor educativo, pondo em prática o lema “rindo, corrigem-se os defeitos da sociedade”. O cómico é, efetivamente, uma das facetas mais cativantes desta obra, tornando-a acessível a todos os públicos.
É, portanto, um espetáculo original a não perder.

Madalena Videira, N.º16 10.ºC2

A Farsa de Inês Pereira - (I)

A Escola foi ao teatro ver a Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente. O texto dramático apreciado ao vivo oferece espaço para outras leituras e opiniões...

Transbordando de interesse
Uma representação da grandíssima obra de Gil Vicente, a Farsa de Inês Pereira, poderia ser apenas mais uma daquelas a que assistimos por obrigação e que se dedica a ditar as magníficas palavras das diversas personagens, no entanto, a representação a que assisti em conjunto com os meus colegas no teatro “ A Barraca”, em Santos, preferiu, felizmente, transbordar a sala com gargalhadas de alunos difíceis de impressionar.
De facto, esta obra retrata a ambição de uma jovem solteira da classe média portuguesa do século XVI, é dividida em 10 quadros que se organizam, consoante o seu contexto, entre a exposição, o conflito e o desenlace. Na representação da mesma, encenada por Maria do Céu Guerra, também responsável pelo espaço cénico e pelos figurinos, com a colaboração de Ricardo Santos no som e de Paulo Vargues na Iluminação, destacam-se as personagens principais: Carolina Parreira com o papel de Inês pereira, ambiciosa e sonhadora que anseia pela liberdade, Sérgio Moras como Pero Marques, inocente, simples e ignorante, e Ruben Garcia que dá vida a Brás da Mata, ciumento e tirano.
O que muito me encantou nesta representação foi a facilidade com que os atores e todo o cenário captaram a atenção do público que, como já disse, consistia num grupo de alunos do 10º ano no qual muitos deles, certamente, não tinham qualquer interesse na peça que iria ser contemplada. Apreciei, por isso, o facto desta representação se ter tornado para todos, ou quase todos, um momento de riso, interesse e descontração. Para além disso, a vivacidade e realismo dos diversos atores despertaram em mim uma afinidade por esta obra. Por último, a mesma acabou por demonstrar, na minha opinião, variadas lições, que reforçam o facto de que nem tudo o que parece é e que por vezes o que achamos ser melhor revela-se como o pior.
Assim, aconselho vivamente a todos os que procuram um momento de aprendizagem, riso e descontração, a visualização desta peça que, com certeza, vos impressionará e cativará a vossa atenção.
Constança Frazão, Nº6, 10.ºC2