quarta-feira, 15 de março de 2017

Em Roma sê Romano - Leitura

"Então o homem soltou o pano branco, que flutuou ao sabor do vento. 
Aquele era o sinal de partida, as quadrigas dispararam lado a lado e foram ganhando velocidade até à primeira curva, onde a branca e a azul se distanciaram das outras duas. Mas logo adiante voltaram a ficar lado a lado e os gritos da multidão redobraram. 
Ana hesitava entre arregalar os olhos para ver melhor o irmão ou tapá-los para não ver nada. 
Tinha medo de que ele caísse tinha medo de que se magoasse, tinha quase a certeza de que ia perder e tinha pena de o ver perder. "Para que é que ele se meteu nisto!", pensou...

(A turma do 7.º 4.ª leu o título Em Roma sê Romano, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, como proposta de leitura autónoma. Os alunos exploraram a obra em Português e História tendo realizado uma ficha de leitura de análise da obra. Neste dia, na Biblioteca foi feita uma apresentação da obra a alguns alunos de outras turmas do 7.º ano de modo a que estes conhecessem um livro que introduz os leitores de um modo lúdico e acessível, no universo da civilização romana.)

A arte do instante (III)

O enigma de um olhar, o tempo suspenso e um instante em representação, algumas das vertentes com que a História de Arte costuma designar o século de ouro da pintura holandesa. Dessa iconografia do quotidiano, de um amor vivo nas tarefas diárias, de um espaço de intimidade, chegamos também às figuras solitárias dessa pintura.

Nesta pintura as figuras, as pessoas estão sós e definem-se pelas suas tarefas, pelas suas atitudes nos espaços e apenas por si. Não existe necessidade de cada uma das figuras se preencher num outro. Nesta pintura cada figura constrói-se inteiramente pelo que realiza sozinha, com a sua postura física. Nela vemos as emoções desvendadas em pequenos gestos, os cabelos em caracóis pendentes sobre o peito, as linhas do vestuário envolvendo corpos, definindo atmosferas, ou a guitarra que em precisos movimentos parece evidenciar um som. Como nos surpreendemos, com a elegância das formas de um corpo que se expande num espelho, ou os gestos de uma pequena boca semi-aberta, ou um sorriso que se estende num cumprimento.

A pintura holandesa do século XVII é feita da apresentação de figuras, de fisionomias que adivinham formas de enredos familiares e sociais. A carta que se escreve, o olhar fixo num sentimento, um pequeno drama que se apresenta, como uma saudade, ou uma inquietação. E depois, sobretudo com Vermeer é a luz que nos chama, que nos encanta, como forma de comunicação  a uma representação.

Vermeer pintou um conjunto de quadros onde notamos nenhum artificialismo da luz. Esta apresenta-se precisa e muito idêntica como a vemos na natureza, tal "como um físico escrupuloso a poderia desejar" (1). Há uma apresentação de raios de luz que se expandem de uma ponta à outra do quadro, pois a luz parece emergir da própria pintura. O espetador surge neste olhar como uma testemunha de um momento, de uma  vontade e de um tempo quotidiano.

(1) Theóphile Thoré Alias W. Bürger, "Van der Meer Delft", in Gazette des Beaux Artes, XXI, 1866.
imagem - Detalhe de A Carta, 1670, National Gallery of Ireland, Dublin.

Na memória de Raul Brandão (III)


A impressão é de frescura e calma, de névoas misturadas de oiro. Esta paisagem molhada e verde é vaga como um sonho: entreabre-se , fecha-se, sorri e adormece... Um silêncio enorme (todos os ruídos são abafados pela névoa), uma amplidão de ervas gotejando, uma luz serena e toldada. (...)

Por um rasgão vê-se o mar espelhado onde a luz esbranquiçada das nuvens se reflecte, e lá no fundo a Ribeira de Barqueiros com um biombo de montes muito verdes. Todos os tons do verde estão aqui representados, cheios de viço e frescura - o verde-azul e derretido nos fundos, o ver-escuro dos lagos de inhames, o verde macio das relvas, o verde-negro das faias, apagados e fundidos no orvalho. (...)

Sempre a mesma humidade e a mesma cor... E este verde sossegado insinua-se pouco a pouco e pacifica. Fica-nos na retina a cor verde e nos ouvidos a flauta afastada dos melros que assobiam sem interrupção no arvoredo formando biombo aos campos de milho. Esta linda estrada estaca de repente diante da falésia e em frente da baiazinha de S. Pedro. Espero o pôr do sol doirado por trás das nuvens cinzentas, espero a irrealidade do crepúsculo nesta luz sempre cheia de surpresas.

A costa para o nascente desdobra-se em cinzento, em roxo e negro no primeiro plano, com uma grande nuvem cor de chumbo a desfazer-se-lhe em cima e um rasgão de céu mais alto e claro, de planície etérea cor-de-rosa. Da névoa esfarrapada sai um clarão de fogo - riscos de oiro atravessam a poeira incendiando tudo em explosão. Por baixo a falésia alta derruba-se sobre o mar, com filamentos verdes derretidos nas águas. No segundo plano o azul mistura-se ao roxo e ao negro requeimado de grandes penedos. E no fundo anda pó verde do mar entranhado no pó roxo que dilui tudo na mesma tonalidade - as águas, o céu, as rochas aguçadas e dramáticas.

Mais um momento e o drama chega ao auge: um crepúsculo em que a gente vê as cores despenharem-se num abismo uma atrás da outra - o azul, o roxo, o lilás, enquanto o horizonte se incendeia. Tudo isto, diante dos meus olhos deslumbrados, escurece, torna-se violeta, afoga-se em névoa, morre num estertor violeta e cinzento. E, por trás dos montes já negros, levanta-se, aumenta e nunca mais cessa a fumarada prodigiosa das nuvens...

Raul Brandão. (2011). As ilhas desconhecidas. Lisboa: Quetzal, páginas 58 e 59; 
Imagem -  Ilhéu de Monchique, a oeste da Ilha das Flores. Açores; © - Paulo Azevedo.

terça-feira, 14 de março de 2017

A arte do instante (II)

A pintura holandesa do século XVII concentra em si um enigma que nos chama, como um cenário, uma luz que se suspende num instante. É uma pintura que nos apela, que nos interpela para observar um momento, mas também para deixar nela o nosso próprio olhar. É uma pintura como uma revelação, onde entramos como estrangeiros e onde ficamos a admirar segredos quotidianos. Segredos de uma felicidade, enredos que suspeitamos nascer de uma representação que tenta combinar atmosferas de intimidade. 

Nem sempre olhámos para esta arte do instante com a devida importância, na proporção que ela merece. Vimos durante muito tempo o domínio de uma arte pela consistência técnica, pois o objeto da representação parecia banal, ou pouco interessante. Afinal eram apenas objetos do quotidiano representados em ambientes caseiros. A vida pode, no entanto, dar-nos, em pequenos instantes, níveis de significação interior muito consideráveis.

As atividades humanas, as suas expressões de vontade, de desejo, de realização das tarefas podem-nos dar evidências de sentido, traços de psicologia de uma sociedade. Essa representação da vida humana numa cena pode constituir uma identificação, a definição de uma identidade, nessa surpresa de instantes. Os valores iconográficos do calvinismo retiraram muitas das imagens tradicionais da mitologia e isso faz-nos compreender como a luz suspensa, aqui é uma iluminação a um foco mais particular, mais íntimo com a individualidade humana de uma época.

A arte, representada na pintura holandesa do século XVII consagrou o instante, como algo que nos escapa, uma paisagem humana efémera e um momento que se assinala. A sua representação incide sobre homens e mulheres em tarefas quotidianas, passageiras, mas ainda assim a fixar um momento de eternidade, captado por uma luz que nos olha.

Este olhar que nos interpela como assistentes de um pequeno tempo dá-nos "uma emoção particular e subtil" (1). A pintura holandesa do século XVII parece querer construir uma imagem que sendo um instante procura algo durável, num mundo que foge todos  os dias. Trata-se de uma pintura que nos dá "uma sucessão eterna de acontecimentos isolados" (2), e que compõe uma obra de arte, como um universo que tenta reduzir o tempo a uma dimensão que se fixe em algo permanente. 

O instante, como composição de uma intimidade, de uma alegria e também de uma eternidade. O que é extraordinário nesta pintura é essa representação no corpo do silêncio, na funcionalidade dos objetos, na intimidade dos espaços. Uma pintura que não imagina, não recria mitos, ou símbolos institucionais, políticos ou religiosos, mas que contempla. Apenas contempla. Esta arte do instante, do tempo suspenso é uma representação da contemplação. 

(1; 2) - Arthur Shopenhauer. (2005). O mundo como vontade e como representação. Lx: Formalpress.
Imagem - Vermeer, Detalhe da carta interrompida, 1665-1667, National Gallery of Art, Washington.

Na memória de Raul Brandão (II)

Aqui acabam as palavras, aqui acaba o mundo que conheço; aqui neste tremendo isolamento onde a vida artificial está reduzida ao mínimo só as coisas eternas perduram. (...) O Corvo não tem peso no mundo, mas nunca senti como aqui a realidade e o peso do Tempo.  Sob o seu domínio todos caminham, repetindo os mesmos gestos e as mesmas palavras, e arrastando o mesmo fardo sem levantarem a cabeça nem desatarem aos gritos.

Estas figuras despidas e trágicas são tremendas como problemas insolúveis. Erguem-se diante de mim, e arredo tudo, esqueço tudo para os interrogar. Não que eles me saibam responder - eu é que hei-de responder a mim próprio, porque foi isto que me trouxe ao Corvo (...)

Um clima ríspido. De Inverno o salitre entranha-se nos homens e nas pedras. Quase sempre chove. (...) O céu amanhece sempre nublado; se clareia até às dez horas temos sol, senão conserva-se todo o dia forrado de névoas. Ventanias ásperas varrem o morro. O céu muda de aspecto todos os dias e quase a todas as horas. À tarde aquela fumarada espessa despega-se lá de cima e arrasta-se sobre as pedras. Para além o céu azul está quase límpido, mas a nuvem, que se não sabe donde vem, toma todas as formas, e, sempre da mesma cor, fixa-se e não larga os montes do Corvo.

às vezes pára, volta atrás, introduz-se nas gargantas e nos vales, dotada duma vida estranha. Sempre nuvens, sempre vento e em cada ano dois meses de Verão. às vezes um ciclone. Juntem a isto o ruído eterno do mar que ecoa nos paredões e nas almas. O sentimento é de tragédia. Tudo se curva às leis essenciais da natureza neste rochedo vulcânico, erguido no meio do mar amargo, e com espigões de granito até profundidades desconhecidas; neste grande desterro, domínio do Tempo, onde a paisagem não sorri nem as raparigas cantam. (...)

As  da necessidade impõem-se no Corvo como em nenhuma outra
parte que conheço. É a solidão que as impõe, é a solidão que lhes ensina a ordem, a disciplina ou os sentimentos cristãos? Nós, se não conseguimos suprimir o tempo, arredamo-lo. Eles não. Também só aqui entrou em mim como uma realidade o que esta palavra quer dizer: o pão. (...)

Aqui não há desgraça - aqui não há fome - aqui não há injustiça. E, no entanto, eu não suporto a ideia nde ficar no Corvo, que tem alguma coisa de monástico, de conventoi erguido no meio do mar. O bem talvez - a vida mais pura talvez - menos sofrimento talvez - mas também eu quero ser deus, embora me dilacere e sofra!...

E este debate, que me não larga, enche-me de tristeza.
A pedra é negra, a vegetação utilitária, a vida, grosseira mas com uma religiosidade como nunca vi em outra parte. Estes seres isolados no mundo - unem-se. Num Inverno em que até os aguarelhos, que vivem no mar, morrem se não emigram a tempo, eles encontram refúgio no sentimento cristão de irmandade, que lhes faz suportar a repetição dos mesmos gestos e dos mesmos actos grosseiros durante toda a existência e o abandono a que estão votados. Melhor: amam a sua ilha. Quando as raparigas embarcam para a América até das pedras se despedem abraçando-as. O Corvo é um mundo.

Raul Brandão. (2011). As ilhas desconhecidas. Lisboa: Quetzal, páginas 36, 49, 50 e 51; Imagens - Copyright - Oliver Schaef

segunda-feira, 13 de março de 2017

A arte do instante (I)

A pintura holandesa do século XVII é um momento de grande significado na arte europeia e mundial. É um a arte que representa instantes de silêncio, momentos do quotidiano e que nos convida a entrar num mundo emerso em valores que nem sempre compreendemos, pois referem-se a pessoas que conduziram uma das excepções do século XVII, a Holanda do comércio marítimo. 

É uma arte que funciona como um enigma, uma espécie de parênteses que se organizou fora do próprio tempo e que quase esquece os meios e as relações onde nasceu. O museu do Louvre em Paris inaugura este mês uma exposição sobre essa luz nórdica que o século XVII holandês tão bem soube definir, essa construção do artista no interior do quotidiano, os seres no interior do silêncio.

A pintura holandesa do século XVII retrata-nos uma população plena de um sentido existencial e que parece muito cativada para as artes e que faz da representação na pintura um corpo narrativo da própria existência, onde encontramos formas honestas, ao mesmo tempo que fortes de uma alegria que se evidencia por si própria. Os retratos desta pintura são a reprodução das diversas possibilidades que as cidades, as habitações, os interiores, uma felicidade doméstica, as crianças, as mulheres parecem nos querer contar. Retratos de espaços de intimidade, dos momentos festivos do quotidiano, da bravura de marinheiros e comerciantes e de um comércio que correu oceanos. 


A pintura holandesa do século XVII revela-nos como os impérios são feitos em breves momentos por espaços particulares e de como a genialidade holandesa conseguiu em meio século dar um sentido pragmático e belo a uma entidade material e social. Essa pintura procurou um sentido representativo da vida real, dando-a como ela se oferecia aos cidadãos, revelando as próprias formas de enquadramento dos objectos da natureza. Para esse feito um conjunto de artistas usou técnicas de utilização da cor que nos deixam ainda hoje em estado de admiração. Técnicas de utilização da cor, sem dúvida, mas também da luz, construindo um quadro de perfeita beleza, onde a cor se assume como uma das suas referências.

A pintura do século XVII revela-nos ainda algo antes da técnica. A representação das características das coisas, a identificação dos seus nomes pela forma como elas se enquadram no quotidiano. Há nesta pintura de um modo muito vivo "um grau de verdade e de perfeição que não pode ser ultrapassado" (1). Ela representa uma forma de abandono aos instantes da vida, mas também é ao mesmo tempo um momento ideal, de algo profundamente essencial e vivo na vida dos cidadãos. Há nesta pintura, uma construção de uma felicidade na vida que possa erradicar as ideias do mal que possam surgir, como surpresa irrefletida das coisas. Existe um humanismo nesta luz do norte e ficamos a pensar, de que modo o Calvinismo tão pragmático, foi um condutor para esta procura de uma felicidade no instante e no silêncio das coisas.

(1)  - Georg Wilhelm Friedrich Hegel. (1993). Estética. Lisboa: Guimarães Editores.

Imagem: Vermeer, vista de Delft, 1666-1661, Mmauritshuis, Haia, Holanda.


A palavra e o mundo - A Desumanização (I)

A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser- se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer.
Pintávamos os móveis de flores escuras. Demorávamos muito e a casa cheirava a tintas más, baratas, que demoravam a secar. O meu pai impedia-me de chorar pelo ofício da racionalidade.
Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos. Talvez não representemos nada, o que me parece impossível. Qualquer rasto que deixemos no ermitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. Dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. E se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. Estamos sempre à conversa com deus. A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças.
Os homens só percebem que há alguém na água, na pedra, no vento, no fogo. Há alguém na terra.
De qualquer maneira, expliquei ao meu pai, a mãe odeia-me. Isso faz-me chorar, deixa-me triste e ofende-me.
Ele insistia explicando-me que as crianças eram modos de espera. Queria dizer que as crianças não tinham verdades, apenas pistas. O seu mundo fazia-se de aparências e tendências, nada se definia. Ser-se criança era esperar. Também significava que queria de mim admirável força sem outro sustento que não o da idade. Deixava-me à sorte, cheia de palavras estranhas cujo significado me custava encontrar.
Olhei para os móveis velhos e achei que já eram tristes antes de os escurecermos. Eram os móveis do nosso eremitério.
Que maravilha, as fundas dos vulcões que respiram e aguardam. Que maravilha, a espessura das montanhas que deitam pé ao debaixo das águas e aguardam. Diziam os velhos carregados de ideias inúteis. Os profundos velhos. Gosto da coragem, aumentados da desconfiança. Palavrinhas acerca de como devia ser cada gesto, cada sentimento, cada sonho de futuro. Como se o futuro estivesse preparado para ser igual ao passado, aos dias que gastaram. Como se eu ainda fosse a tempo de lhes ser igual. Uma velha metida para dentro a conspirar inconfessavelmente contra tudo e contra todos.
Quem tem filhos, precisa do futuro. Ouvi-os falar assim.
Punham-se à espreita das águas a perceber se havia movimentos suspeitos. Quase todos queriam ver monstros. Ninguém se convencia de que os mares eram só para animais de clara ciência. Alguns juravam ter visto cabeças levantadas, feitas de dez olhos e bocas de mil dentes. Monstros oceânicos. Viam o oceano como sangue de cristal. Balanceava diante de nós sinuoso, muito belo, mas carregava-se de perigos e sonhava com afogar-nos a todos. O oceano desceu das veias puras de deus. Dizia um velho. Nas veias puras de deus vivem parasitas que são monstros.

Valter Hugo Mãe. (2016). A Dezumanização. Porto : Porto Editora, páginas 29-31.