quarta-feira, 19 de abril de 2017

Abril


É um mês de muitas possibilidades. É um recomeço a construir um pensamento livre, como uma circunferência de giz a imaginar detalhes de um sonho.  É um mês de promessa, o do Verão a sobrar de dias ainda pouco quentes, de uma luz de cor de mar, ou de céu de montanha. É um mês de livros, a declamar palavras em ruas de chuva, a sonhar com o mês das rosas.
É Abril, um mês a imaginar um pensamento, como aves penduradas no vento. 
Um bom recomeço a todos!
Contemplava a própria vida
na sorte desses instantes
que tanto se assemelham a furtivos lírios
à chegada da noite
mas dizia: um coração é sempre um pássaro
evadido à censura da penumbra

nenhum sofrimento conseguia desfazer
as muitas exaltações que mantinha
e mesmo à beira do abismo
exibia uma facilidade talvez sem razão

quando a arte das chamas se tornou
nas cidades uma ciência ameaçada
percebemos que há muito nos falava
do interior das florestas

José Tolentino Mendonça. (2010). “Furtivos lírios”, in Baldios. Lisboa: Assírio & Alvim.
Imagem (Via Dias com Árvores) -  Vicia latyroides, ou Ervilhaca-miúda: na confluência do rio Sabor e Maçãs (Terra Quente - Trás-os-Montes), um dos que foi um dos últimos rios selvagens da Europa, antes do empreendorismo do regime.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A Farsa de Inês Pereira (III)

A Escola foi ao teatro ver a Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente. O texto dramático apreciado ao vivo oferece espaço para outras leituras e opiniões...
A Farsa em Teatro

No dia 25 de janeiro, tivemos o prazer de visionar uma peça intitulada Farsa de Inês Pereira, escrita por Gil Vicente em meados do séc. XVI, da qual tínhamos analisado grande parte em contexto de sala de aula.
A representação foi encenada por Maria do Céu Guerra e teve como atriz principal Carolina Parreira, representando Inês Pereira, a moça “singela” e sonhadora.
Em resumo, a obra relata-nos a história de uma rapariga que tinha o desejo de se casar de modo a libertar-se das tarefas doméstica a que a sua mãe autoritária a obrigava.  Inês foi apresentada a dois homens,  rejeitando o primeiro pelo seu estatuto social e por ser desajeitado (Pêro Marques) e aceitando casar com o segundo pelo seu estatuto social e por ser “discreto”. Este casamento não decorre como esperava, o primeiro morre, Inês fica viúva e reconsidera a sua primeira opinião, casando agora com Pêro Marques. Gil Vicente cumpre assim o mote que lhe foi dado- (“Mais vale asno que me leve, que cavalo que me derrube”).
Na minha opinião, a peça que tivemos oportunidade de ver está extremamente bem conseguida, apesar da inexperiência que alguns atores poderiam ter, tornando a obra interessante, não só porque recorre ao cómico e à sátira contundente (característica da Farsa) como também à interação público-ator, diversas vezes, contribuindo para uma maior e melhor aprendizagem dos conhecimentos da obra. Além disso, o facto do cenário ser sempre o mesmo reflete-se como um aspeto negativo, podendo, no meu entender, ter sido mais elaborado. Por outro lado, o jogo de luzes que marcava a passagem da noite para o dia foi brilhante e surpreendente, pois através de um recurso tão simples conseguiram criar o efeito pretendido.
Em conclusão, o visionamento da peça foi, globalmente, enriquecedor e produtivo para a aprendizagem, motivado pela capacidade de cativar a atenção revelada pelos atores. Sinceramente, aconselho vivamente este espetáculo no Teatro “A Barraca”.

A Farsa de Inês Pereira (II)

A Escola foi ao teatro ver a Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente. O texto dramático apreciado ao vivo oferece espaço para outras leituras e opiniões...

Apreciação crítica

“Rindo, corrigem-se os defeitos da sociedade”

No passado mês, o décimo ano deslocou-se ao teatro “A Barraca” onde assistiu a “A Farsa de Inês Pereira”.
Escrita por Gil Vicente no século XVI, e representada pela primeira vez em Tomar, é uma comédia de costumes que satiriza a sociedade quinhentista.
Este aspeto satírico está também presente em, por exemplo, o “Auto da Barca do Inferno” no qual, de forma humorística, Gil Vicente nos dá a conhecer o declínio de valores da época.
Tendo como mote “mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube”, esta Farsa conta a história de uma jovem ambiciosa e sonhadora, no papel de Carolina Parreira, que pretende ascender socialmente através do casamento. É nesta escolha de pretendentes –entre o “asno” simplório e o “cavalo” galante que se centra a ação desta divertida peça.
Através das esfusiantes situações de conflito e de cómico, por exemplo, entre Inês e Pêro Marques, ficamos a conhecer cenas da vida daquela época, como a vida doméstica ou os casamentos combinados, algo tão diferente dos nossos dias.
Está particularmente bem conseguida a interação entre os atores e o público, que tem oportunidade de participar na ação.
Embora parcos, os cenários são eficazmente complementados por um interessante jogo de luzes, a cargo de Paulo Vargues, que nos indica, por exemplo, a transição das várias horas do dia.
Além de divertida, esta peça tem um grande valor educativo, pondo em prática o lema “rindo, corrigem-se os defeitos da sociedade”. O cómico é, efetivamente, uma das facetas mais cativantes desta obra, tornando-a acessível a todos os públicos.
É, portanto, um espetáculo original a não perder.

Madalena Videira, N.º16 10.ºC2

A Farsa de Inês Pereira - (I)

A Escola foi ao teatro ver a Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente. O texto dramático apreciado ao vivo oferece espaço para outras leituras e opiniões...

Transbordando de interesse
Uma representação da grandíssima obra de Gil Vicente, a Farsa de Inês Pereira, poderia ser apenas mais uma daquelas a que assistimos por obrigação e que se dedica a ditar as magníficas palavras das diversas personagens, no entanto, a representação a que assisti em conjunto com os meus colegas no teatro “ A Barraca”, em Santos, preferiu, felizmente, transbordar a sala com gargalhadas de alunos difíceis de impressionar.
De facto, esta obra retrata a ambição de uma jovem solteira da classe média portuguesa do século XVI, é dividida em 10 quadros que se organizam, consoante o seu contexto, entre a exposição, o conflito e o desenlace. Na representação da mesma, encenada por Maria do Céu Guerra, também responsável pelo espaço cénico e pelos figurinos, com a colaboração de Ricardo Santos no som e de Paulo Vargues na Iluminação, destacam-se as personagens principais: Carolina Parreira com o papel de Inês pereira, ambiciosa e sonhadora que anseia pela liberdade, Sérgio Moras como Pero Marques, inocente, simples e ignorante, e Ruben Garcia que dá vida a Brás da Mata, ciumento e tirano.
O que muito me encantou nesta representação foi a facilidade com que os atores e todo o cenário captaram a atenção do público que, como já disse, consistia num grupo de alunos do 10º ano no qual muitos deles, certamente, não tinham qualquer interesse na peça que iria ser contemplada. Apreciei, por isso, o facto desta representação se ter tornado para todos, ou quase todos, um momento de riso, interesse e descontração. Para além disso, a vivacidade e realismo dos diversos atores despertaram em mim uma afinidade por esta obra. Por último, a mesma acabou por demonstrar, na minha opinião, variadas lições, que reforçam o facto de que nem tudo o que parece é e que por vezes o que achamos ser melhor revela-se como o pior.
Assim, aconselho vivamente a todos os que procuram um momento de aprendizagem, riso e descontração, a visualização desta peça que, com certeza, vos impressionará e cativará a vossa atenção.
Constança Frazão, Nº6, 10.ºC2


sexta-feira, 31 de março de 2017

Os filmes do mês

São Jorge é um filme português que entrou em exibição nas salas de cinema durante o mês de março e que nos devolve uma leitura sobre os anos da Troika em Portugal, justamente 2012 a 2015. É um filme assinado na realização por Marco Martins e que tem na representação de Nuno Lopes um enorme papel, que foi premiado no último festival de cinema de Veneza.

O filme retrata uma comunidade humana, a cidade da Bela Vista, na Amadora e nos a vida a procurar sobreviver ao mínimo possível. Jogador de boxe, Jorge, para manter a família decide candidatar-se a um emprego, segurança numa empresa de cobranças. Existiam em Portugal, em 2015, mais dez mil empresas de cobranças. Estas empresas estavam legalizadas, mas podiam usar os métodos que entendessem para recuperar o valor das dívidas. 

O filme retrata não só uma profunda crise económica e social, mas  também as relações humanas que eram em muitas situações de assinalável racismo. O homem isolado numa sociedade em que tudo vale revela-nos uma densidade dramática que nem todos terão tido conhecimento. É uma obra cinematográfica de grande relevo, pois faz o que raramente o cinema em Portugal tenta construir, que é uma leitura sobre os acontecimentos, enquanto eles ainda persistem. O filme deixa muitas zonas de silêncio sobre o tempo social e político, para quem o souber ler. Um filme a ver.

Aquarius foi outra das estreias do mês de março que se revela um grande filme de cinema. Realizado por Kleber Mendonça Filho e com a participação especial de Sónia Braga, o filme mostra uma realidade que vai sendo progressiva em cidades tornadas mostras de uma Disneylândia para investidores ricos. Uma viúva reformada tenta lutar contra a compra e os métodos usados por uma grande empresa para vender o seu apartamento. Filme de grande significado, com uma representação notável e que é um grito de pessoas isoladas contra o poder especulativo e financeiro de grupos sem dimensão humana.


Negação de Mick Jackson é um filme que procura retratar uma disputa judicial que envolve uma historiadora do Holocausto e uma figura que o nega. O filme baseia-se no livro de Deborah Lipstadt, Denial: Holocaust History on Trial. O filme coloca uma das questões que há algumas décadas alguma historiografia quis levantar, embora seja sobretudo um ato de fé e não a produção de conhecimento. As lutas ideológicas e religiosas contribuem pouco para o conhecimento da realidade. Ainda assim é um filme curioso para conhecer a ideia da negação.

Dois outros filmes ainda estreados em março são Um Reino Unido de Amma Asante e Um Instante de Amor de Nicole Garcia.

Em Um Reino Unido a realizadora devolve-nos uma história verídica acontecida no final da década de quarenta do século XX, envolvendo um príncipe herdeiro  do Botoswana, Seretse Khama e uma britânica branca, Ruth Williams. A história é interessante e serve como documentário a uma realidade que foi superada,  a do apartheid e a do colonialismo. Trata-se de uma mor que venceu as dominações políticas da época. 

Um Instante de amor é um filme que se baseia na obra homónima de Milena Agus e tem em Marion Cotillard um grande desempenho. A narrativa ocorre na França no início da década de cinquenta. 
Filme sobre os tempos após a 2ª guerra mundial e que nos questiona sobre as dificuldades de as mulheres terem um papel mais participativo numa sociedade conservadora, sobretudo em ultrapassar esquemas culturais muito rígidos em relação aos comportamentos. Gabrielle sente-se angustiada pela vida e como tem de a viver. O seu conhecimento com André Sauvage, um ex-soldado ferido na guerra da Indochina parece dar um sentido novo à sua vida, parece dar-lhe a conhecer uma forma diferente de amor.