quinta-feira, 18 de maio de 2017

Uma Biblioteca... entre os livros e as pessoas...

Uma Biblioteca Escolar é um espaço de construção de uma intimidade com as palavras, de afeto com os livros e de apoio à aprendizagem pelos recursos que estão disponíveis e pelas atividades que se promovem. Uma Biblioteca é isto e um pouco mais. Deve ser um espaço de pessoas, um espaço de comunidade. Nos últimos três anos letivos foi isso que tentou ser. Falou-se sempre em coletivo, pois é dele que deve nascer uma participação colaborativa daquilo que nos importa.

Os textos do blogue (perto de oitocentos nestes três últimos anos) foram identificados quando se publicaram mensagens ou trabalhos dos alunos. Os outros textos foram na grande maioria por mim escritos, o que nem é muito positivo, pois seria desejável que uma larga fatia de elementos desta comunidade participasse com as suas ideias. O Rainha em Folha, A Cozinha Experimental, os textos dos alunos e as apresentações de biografias no Caderno Digital foram a exceção.

Nunca achei que fosse preciso colocar o meu nome porque sempre me pareceu que a Biblioteca deve ser um espaço de todos. Da coleção às pessoas é o sentido de uma Biblioteca. Um texto por mim escrito: Salvador Sobral - Uma canção de milagre nas estrelas, levantou a algumas pessoas um sentido de desconforto. Embora me pareça excessivo aquilo que ouvi e em algumas das formas como foi feito, deu-se a possibilidade de o eliminar, ou que alguém quisesse exprimir alguma ideia sobre a sua temática que fosse diferente. Foi sempre a procura de participação aquilo que se tentou dinamizar em diferentes níveis e abordagens.

Devido a estas dificuldades e por sugestões recebidas, colocarei o meu nome nos textos por aqui publicados nos últimos três anos. Farei isso se o conseguir realizar, até 31 de julho, visto que são muitos textos.  Nas publicações de introdução de códigos HTML não farei essa alteração, até porque foram todos revistos pela equipa da Biblioteca. 

Sempre achei que eles, os textos e as publicações realizadas eram um modo de abordagem de uma Biblioteca. Tenho pena que com tanto tema estudado e abordado, em tantas e diversas disciplinas e, com o mundo a fazer-nos questionar sobre tanto assunto não se consiga trazer a voz escrita e o pensamento dos diversos elementos da comunidade educativa. Reconheço ampla e completamente o que escrevo e não queria fazer disso uma afirmação, porque o que mais importa é um sentido de um espaço essencial.  Foi apenas o que se tem procurado fazer. Abrir caminhos de pensamento.

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

Peregrinação (V)

Peregrinação: que palavra, que imagem, que sonho, que viagem, que pensamento nos conduz por esta palavra? Espinoza dizia que o sentido das coisas derivava de uma proximidade de realidade entre elas. Escolhemos então o que nos aproxima de muitas coisas, do mundo, dos outros. Como o fazemos? Com que linguagem?

# 7 - Peregrinação: 
”Se o dia e a noite são de tal forma que se saúdam com alegria, e a vida irradia uma fragância que lembra flores e ervas aromáticas, é mais elástica, mais estrelada, mais imortal, é esse o teu sucesso. A natureza inteira é o teu aplauso, e tens uma razão momentânea para te abençoares. Os maiores ganhos e valores estão longe de ser apreciados. Facilmente duvidamos que eles existem. Facilmente os esquecemos. São a realidade mais elevada… A verdadeira colheita da minha vida diária é de alguma forma tão intangível e indescritível como as tonalidades da manhã ou do fim do dia. É um leve pó de estrelas surpreendido, uma porção de arco-íris que agarrei.” (1)

# 8 - Peregrinação: 
”Estes são tempos modernos, disse a mim próprio. Mas nós não temos de estar presos neles. Podemos ir onde quisermos, comungando com os anjos, retomando um tempo da história da humanidade mais ficcional do que o futuro.
Pouco a pouco vamos sendo libertados da tirania daquilo a que se chama o tempo. Uma cortina de glicínias de cor púrpura esconde parcialmente a entrada para um jardim que me é familiar. Sento-me numa mesa oval, o meu portal de Schiller, e estico as mãos para acariciar o pulso do matemático de olhos tristes. A fenda que nos separa fecha-se. No piscar de olhos que é o tempo da vida de uma pessoa, atravessamos os movimentos infinitos de uma introdução musical silenciosa.” (2)


# 9 - Peregrinação: 
É preciso voltar à Beleza, como uma inscrição do Universo. É preciso voltar a admirar o mundo natural, contemplar o belo no efémero e inserirmo-nos numa forma de mundo onde se revelem sentimentos e não sentimentalismo. É preciso recomeçar um caminho que permita olhar e entrar nesse silêncio das coisas. É preciso saber acolher e saber esperar para que a melodia das coisas se encontre com “o murmúrio de uma leve brisa” (Primeiro Livro de Reis, 19,12).

(1) - Henry David Thoreau. (2007), Walden, ou a vida nos bosques. Lisboa: Relógio D’ Água.
(2) - Patti Smith. (2016). MTrain. Lisboa: Quetzal.
Imagens - Copyright: 
Imagem 1 - do filme, Into the wilde, de Sean Peen; Imagem 2 - © – Giannis Gogos; Imagem 3 - © – Scrapbook

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

Peregrinação (IV)

Peregrinação: que palavra, que imagem, que sonho, que viagem, que pensamento nos conduz por esta palavra? Espinoza dizia que o sentido das coisas derivava de uma proximidade de realidade entre elas. Escolhemos então o que nos aproxima de muitas coisas, do mundo, dos outros. Como o fazemos? Com que linguagem?

# 4 - Peregrinação: 
“- O falcão deixou de contar connosco para que o ensinemos a voar.
  - Enigmas e mais enigmas.
  - Não tens de escutar. Tens de te escutar.
  - Mas pode um homem escutar a sua escuridão?
  - Tudo é caminho. (…) Tu és a árvore. Tu és o sopro do bosque. Tu és o cheiro forte e amargo dos fetos. Tu és a linha de névoa flutuante. Não digas: aprendo a caminhar na escuridão. Diz somente: sou.” (1)


# 5 - Peregrinação: Queria ainda dizer que o conhecimento de Deus é um conhecimento vivido, como é todo o conhecimento de amor ou de sofrimento. E parece‑me isto muito importante, porque as pessoas persistem em querer funcionar com conhecimentos abstractos e intelectualizantes em coisas tão profundamente experimentais como o amor ou a morte. Aqui é que funciona a palavra que se fez carne, e sem isso a palavra não tinha explicação. […] O conhecimento de Deus é um conhecimento vivido. É um conhecimento que exige a participação do corpo chamado pela água, pelo vinho, pelo gesto ou pelo óleo: qualquer coisa de sensível que nos faz participar de qualquer coisa de absoluto.” (2)

# 6 - Peregrinação:

“A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. Disse o meu pai. Nós não somos mais do que a carne do poema. Terrível ou belo, o poema pensa em nós como palavras ensanguentadas. Somos palavras muito específicas, com a terna capacidade da tragédia. A tragédia, para o poema, é apenas uma possibilidade.  (…)
Onde há palavra, há deus. Onde nasce a palavra, nasce deus. Todos os outros lugares são ermos sem dignidade.
Depois, pensei que o ermo era uma entidade que deus ciara para ser assim. Uma forma de expressão muda. Lugares mudos que acusavam a paciência das matérias, a sua maturação, a longevidade e a criatividade paulatina mas exuberante das coisas naturais. Só pareciam mortas. Não estavam mortas. As montanhas eram corpos deitados.”

(1) - José Tolentino Mendonça. (2013). O estado do bosque. Lisboa: Assírio & Alvim.
(2) - António Alçada Baptista. Peregrinação Interior.
(3) - Valter Hugo Mãe. (2013). Desumanização. Porto: Porto Editora

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A palavra e o mundo - O enigma da chegada (II)

"Eu via uma floresta. Mas não era realmente uma floresta; era a penas o velho pomar nas traseiras do casarão em cuja propriedade se encontrava a minha casa. Aquilo que via, via-o muito claramente. Mas não sabia para que estava a olhar. Não tinha nada em que pudesse encaixar aquilo que via. Sentia-me ainda uma espécie de limbo." (1)

V. S. Naipul tem uma obra longa e premiada, com destaque para o Booker Prize de 1971 e o Prémio Nobel da Literatura em 2001. Natural de Trindade, nas Caraíbas descende de uma família de origem indiana, cujos antepassados vieram da Índia para as Antilhas no processo de globalização económica que foi o Império Inglês no século XIX. V. S. Naipul concilia uma ironia e uma observação britânica com um espírito de análise e um minimalismo de vida ligado ao hinduísmo e à sua memória.

Partiu jovem para Inglaterra para estudar Literatura em Oxford e a sua vida de escritor   mistura-se, a partir de certo momento com a do homem. Processo e descoberta difícil, enquanto o escritor não compreendia que homem o habitava, nessa relação de culturas que viveu de forma intensa. O enigma da chegada, livro de 2008 é um testemunho deslumbrante desse percurso de vida e do nascimento do escritor e dos temas que o fundiram com o homem, o adolescente e criança em Trindade e o adulto em Oxford.

O enigma da chegada descreve-nos a evolução de um escritor, os locais por onde viveu, com destaque para o lugar que o fez renascer. Justamente um vale perto de Stonehenge, onde habitou uma casa que integrava uma grande propriedade rural, o que nos permite conhecer uma região, a sua ocupação humana no tempo. Espaço pertencente à aristocracia rural, nela vemos desfilar as personagens que lá trabalhavam, as suas motivações e compreendemos a atmosfera que as envolvia, o seu trabalho, a sua visão do mundo, a sua intimidade com as coisas. A casa habitada pelo autor e as experiências vividas nessa propriedade deram-lhe a possibilidade de encontrar o sentido, o significado para a efemeridade da vida humana.

O enigma da chegada faz a descrição precisa da paisagem, como o autor a via nos seus passeios e permitiu-lhe abordar um microcosmo, a sua relação com a sociedade e como o tempo vai desfazendo sentidos antigos. O enigma da chegada é um livro que pertence a uma categoria muito restrita. Aquela que tem a capacidade de dialogar com o leitor, como se falasse com ele directamente. O enigma da chegada é uma longa e aprazível conversa, onde se revela uma grande sensibilidade na observação. Os passeios de V. S. Naipul dão-nos uma observação muito cuidada da Natureza, da sua evolução no tempo. "O jardim de Jack" e os trabalhadores da mansão dão oportunidades de reflexão ao autor sobre a vida, as escolhas que se fazem e delas extrai sentidos que parecendo particulares são absolutos sobre a própria existência.

O passado, os seus fragmentos sem memórias, os vestígios, relíquias de outras vidas, de outros sonhos procuram dar um significado para a ideia de ruína e degradação. Sendo um livro auto-biográfico é muito, uma obra literária sobre o Homem no Tempo. Uma geografia antes dos homens, o trabalho humano como uma declaração poética, um sentido vivo da vida ou só mais uma ruína, são questões colocadas. Como lidar com essa mutação da vida, dos seus objectos no tempo, como compreender a degradação contínua, a mudança constante em nós, no nosso tempo?

A experiência do que vivemos e a linguagem, como instrumentos de uma memória e de uma exaltação são tentativas para obter uma resposta. E ainda a consciência final de que sobre a melancolia e as nossas dores é importante compreender "que a vida, o ser humano, era o mistério, a verdadeira religião dos homens, a dor e a glória" (p.438). E compreendê-lo com assombro pela vida e pelos homens. E aceitar que a vida é sempre o recomeço de nós próprios. E verificar mais uma vez que a Literatura pode ser em alguns circunstâncias um instrumento de contextos, de significados poéticos para uma sobrevivência. A da memória .

(1) V. S. Naipul. (2013). O enigma da chegada. Lisboa: Quetzal.

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

terça-feira, 16 de maio de 2017

Peregrinação (III)

Peregrinação: que palavra, que imagem, que sonho, que viagem, que pensamento nos conduz por esta palavra? Espinoza dizia que o sentido das coisas derivava de uma proximidade de realidade entre elas. Escolhemos então o que nos aproxima de muitas coisas, do mundo, dos outros. Como o fazemos? Com que linguagem?
#1 – Peregrinação:
 A Peregrinação é uma caminhada à procura do sentido das coisas”
 Luísa Ribeiro Ferreira

#2 – Peregrinação:
 Peregrinação é uma palavra de origem latina que se escrevia, “per agros”. Peregrinação significa a realização de uma viagem por terras distantes ou não conhecidas. Na verdade todos somos estrangeiros. Camus falou num sentido ontológico, mas o próprio Jesus o disse” Eu não sou deste mundo.” 
E nós seremos deste mundo? Pode-se ser um viajante e ir de encontro a um destino previamente traçado. Pode-se ser um flaneur, aquele que caminha, sem saber onde vai chegar. Peregrinação é outra coisa. É realizar uma viagem como um nómada pelo silêncio da paisagem. Assim, a Peregrinação é um caminho para encontrar a nossa própria vida, o encontro com a nossa natureza mortal.

#3 - Peregrinação:
A Peregrinação é vista como uma viagem. Nesse sentido essa viagem é uma metáfora do que vivemos, é como o reconhecimento do mundo, nós de encontro aos nomes das coisas, por nós dados e sentidos. 

Imagens: Copyright - .....
Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

Boletim da Biblioteca 15 - A Arte do Instante

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A palavra e o mundo - O enigma da chegada (I)

Jack vivia no meio de ruínas, no meio de coisas que já não serviam para nada e tinham sido substituídas por outras. Porém, esta visão de Jack e do ambiente que o rodeava só me surgiu mais tarde, e impôs-se com mais força agora, à medida que vou escrevendo. Não foi a impressão com que fiquei da primeira vez que, num dos meus passeios, passei por lá.

Essa ideia de ruína e degradação, essa sensação de deslocamento, era algo que eu experimentava em mim mesmo, algo que transportava em mim: um homem de meia-idade, originário de um outro hemisfério, com um passado completamente diverso, procurava repouso numa casa de uma propriedade meio abandonada, uma propriedade cheia de recordações de um passado eduardiano, com escassas ligações ao presente. (...)

No entanto, quanto a Jack, eu via-o como um elemento mais na paisagem. A sua vida parecia-me autêntica, enraizada, adaptada: a vida de um homem que encaixava perfeitamente na paisagem. Via-o como um vestígio do passado (cuja desagregação era anunciada pela minha própria presença).

Quando dei aquele primeiro passeio e me limitei a ver a paisagem, tomando aquilo que via como simples elementos desse mesmo passeio, coisas que podíamos encontrar no campo em redor de Salisbury, coisas imemoriais, apropriadas, não me ocorreu que Jack viva no meio do lixo, no meio das ruínas que tinham quase um século; que o passado que envolvia a sua casa podia não ser o seu passado; que podia ter sido, num dado momento, um recém-chagado ao vale; que o seu estilo de vida podia ter sido uma opção, um ato consciente; que, do pequeno terreno que lhe coubera em sorte juntamente com a casinha de trabalhador ruaral, Jack criara uma casa especial para si mesmo, um jardim onde (embora rodeado de ruínas, recordações de vidas desaparecidas), ele se sentia mais do que feliz por levar a vida que levava e onde, como numa versão de um Livro de Horas, ele celebrava as estaçoes. (....)

E, no entanto, ainda demorei algum tempo, à medida que ia ganhando consciência das estações, a descobrir o jardim. Até então, o jardim estivera simplesmente ali, qualquer coisa no caminho, um ponto de referência, nada que merecesse grande atenção da minha parte. E, no entanto, eu amava aquela paisagem, as árvores, as flores, as nuvens, e era sensível às mudanças de luz e temperatura.