quinta-feira, 18 de maio de 2017

Peregrinação (V)

Peregrinação: que palavra, que imagem, que sonho, que viagem, que pensamento nos conduz por esta palavra? Espinoza dizia que o sentido das coisas derivava de uma proximidade de realidade entre elas. Escolhemos então o que nos aproxima de muitas coisas, do mundo, dos outros. Como o fazemos? Com que linguagem?

# 7 - Peregrinação: 
”Se o dia e a noite são de tal forma que se saúdam com alegria, e a vida irradia uma fragância que lembra flores e ervas aromáticas, é mais elástica, mais estrelada, mais imortal, é esse o teu sucesso. A natureza inteira é o teu aplauso, e tens uma razão momentânea para te abençoares. Os maiores ganhos e valores estão longe de ser apreciados. Facilmente duvidamos que eles existem. Facilmente os esquecemos. São a realidade mais elevada… A verdadeira colheita da minha vida diária é de alguma forma tão intangível e indescritível como as tonalidades da manhã ou do fim do dia. É um leve pó de estrelas surpreendido, uma porção de arco-íris que agarrei.” (1)

# 8 - Peregrinação: 
”Estes são tempos modernos, disse a mim próprio. Mas nós não temos de estar presos neles. Podemos ir onde quisermos, comungando com os anjos, retomando um tempo da história da humanidade mais ficcional do que o futuro.
Pouco a pouco vamos sendo libertados da tirania daquilo a que se chama o tempo. Uma cortina de glicínias de cor púrpura esconde parcialmente a entrada para um jardim que me é familiar. Sento-me numa mesa oval, o meu portal de Schiller, e estico as mãos para acariciar o pulso do matemático de olhos tristes. A fenda que nos separa fecha-se. No piscar de olhos que é o tempo da vida de uma pessoa, atravessamos os movimentos infinitos de uma introdução musical silenciosa.” (2)


# 9 - Peregrinação: 
É preciso voltar à Beleza, como uma inscrição do Universo. É preciso voltar a admirar o mundo natural, contemplar o belo no efémero e inserirmo-nos numa forma de mundo onde se revelem sentimentos e não sentimentalismo. É preciso recomeçar um caminho que permita olhar e entrar nesse silêncio das coisas. É preciso saber acolher e saber esperar para que a melodia das coisas se encontre com “o murmúrio de uma leve brisa” (Primeiro Livro de Reis, 19,12).

(1) - Henry David Thoreau. (2007), Walden, ou a vida nos bosques. Lisboa: Relógio D’ Água.
(2) - Patti Smith. (2016). MTrain. Lisboa: Quetzal.
Imagens - Copyright: 
Imagem 1 - do filme, Into the wilde, de Sean Peen; Imagem 2 - © – Giannis Gogos; Imagem 3 - © – Scrapbook

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

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