segunda-feira, 8 de maio de 2017

A palavra e o mundo - Breves notas sobre música (I)

A matemática não é para ser cantada, mas podemos imaginar uma orquestra em que cada um dos seus elementos desenvolva equações. Que o canto ou o som de um instrumento sejam semelhantes ao percurso da matemática quando tenta resolver um problema difícil. Que o som seja uma forma, um percurso, em que se vai do complexo para o simples, da grande confusão para o número único que soluciona e acalma. Música como raciocínio que começa no primeiro som, que é problema, e chega ao fim da música fazendo existir o último som, o que soluciona.

Mas há músicas em que o final não finaliza, mas começa; em que o fim é portanto, ameaça ou expectativa, em que o fim não pede uma passividade satisfeita, mas exige, sim, ao ouvinte, pelo contrário, que se levante porque os seus músculos e o seu raciocínio lhe pedem acção.

Steiner lembra a misteriosa frase de Leibniz "quando canta para Si, Deus canta álgebra", Leibniz que associa a linguagem à "razão audível", à razão que se faz ouvir; razão, portanto, que ocupa o espaço que vai da boca que fala ao ouvido que ouve. Uma racionalidade que se faz som: falamos para os outros, ouvimos o outro.

Mas, então, como pode haver tanto mistério no canto por vezes aparentemente tão exacto?
Uma racionalidade misteriosa que se faz som - eis, talvez, uma definição da música que mais nos encanta.
Se Deus canta uma música exacta, se DEus canta o exacto; ou se Deus, pelo contrário, canta o confuso, o ambíguo, o não resolvido? - eis a dúvida que se pode colocar.

Deus canta versos crípticos ou Deus canta a resolução infalível de uma longa equação?
Meu caro, dirão uns: é sempre preferível entender.
Meu caro, dirão outros: apesar de tudo, apesar de tudo, é preferível não entender, não entender, não entender.

Gonçalo M. Tavares. (2015). Breves notas sobre música. Lisboa: Relógio D' Água.

domingo, 7 de maio de 2017

Dia da Mãe

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.

Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas. 

E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães. (...)  

E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor. 
  

   Herberto Helder, "Fonte", in A Colher na Boca; Imagem, Angela MorganMaternitat

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Filmes do mês - Ciclos de Cinema - Mizoguchi (I)

Nos destaques de cinema, abril iniciou um acontecimento de grande significado na Sétima Arte. A Medeia Filmes, no Espaço do Monumental passou um ciclo de cinema do japonês Kenji Mizoguchi, que durante o mês de maio de repetirá no Espaço Nimas (Lisboa) e no Campo Alegre (Porto). Kenzi Mizoguchi é com Yasujiro Ozu e Akira Kurosawa o trio essencial do cinema japonês do século XX.

O primeiro filme do alinhamento do ciclo chama-se Contos da Lua Vaga. Filme de 1953 que teve no Festival de Veneza o Leão de Prata e recebeu o Prémio Pasinetti. Teve ainda nos Óscars a nomeação para melhor guarda-Roupa. 

Ficha Técnica:
  • Realização - Kenji Mizoguchi;
  • Argumento - Yoda Yoshikata;
  • Fotofrafia - Kazuo Miyagawa;
  • Montagem - Mitsuzô Miyata;
  • Produção - Masaichi Nagata;
  • Actores principais - Masayuki Mori, Kinuyo Tanaka, Machiko Kyo, Mitsuko Mito.
Sinopse: O Filme retrata uma história de fantasmas que reúne contos de Akinari Ueda e Guy de Maupassant fala-nos de um modo assombroso sobre o amor e a perda, aquilo que no real vemos e compreendemos e tudo o que na vida nos transcende.

Tobei - "Se não sonar alto, como um homem pode crescer na vida? A ambição deve ser ilimitada como o oceano. Juro pelo deus da guerra que estou cansado de ser pobre."

Genjuro - "Dinheiro é tudo. Sem ele a vida é dura e toda a esperança perece. Ganharei cada vez mais. Vou tentar fazer cada vez mais cerâmicas. O máximo que puder."

Líder da aldeia - "Eles são ambiciosos demais. Lucro fácil ganho em tempos caóticos nunca dura. Um pouco de dinheiro inflama a cobiça dos homens."

Miyagi - "Não é o quimono. É a sua generosidade que me faz feliz. Desde que você esteja comigo, não quero mais nada da vida."

Nos filmes de Mizoguchi há uma abordagem temática que é comum, o universo feminino e a sociedade feudal do Japão. Em Contos da Lua Vaga a história narra a vida de dois irmãos que estão dominados por uma intensa ambição. Esta cede a todo um conjunto de situações pondo em risco a família, de modo a atingir os seus objectivos. O filme surge-nos como uma fábula, onde encontramos a ambição extrema de dois homens e a coragem de duas mulheres, que procuram mostrar-lhes o essencial, que a riqueza não é tudo. 

O cinema de Mizoguchi só foi descoberto nos anos cinquenta no Ocidente, embora ele já trabalhasse desde os anos vinte. Contos da Lua Vaga é uma das suas obras-primas.

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

Os filmes do mês

 Abril trouxe-nos um conjunto de filmes que se dedicaram a construir narrativas onde encontramos, o amor, a guerra e a esperança. Podemos destacar os seguintes:
  • Ali e Nino de Asif Kapadia;
  • The last face de Sean Penn
  • O Jardim da Esperança de Niki Caro;
Ali e Nino é uma co-produção do Azerbeijão e da Grã-Bretanha, com a realização de Asif Kapadia. O filme mistura uma história de amor e a guerra no período do início do século XX, quando o Azerbeijão lutava pela sua independência política. O filme apresenta-se como um remake num cenário diverso de Romeu e Julieta. Ele é um descendente de grandes famílias do Azerbeijão ligadas à exploração petrolífera. Ela é uma princesa cristã da linha ortodoxa. Ali e Nino procura trazer-nos uma narrativa que transporta para o cinema, um dos mais importantes livros da literatura do Azerbeijão, da autoria de Kurban Said e publicado em 1937.

The Last Face é igualmente uma narrativa que se centra numa história de amor cujo horizonte temporal é a História recente do continente africano. Com os papéis principais desempenhados por Javier Bardem e Charlize Theron, The Last Face, traduzido por A Última Fronteira é realizado por Sean Penn. O cenário do filme é a guerra civil na Libéria e toda a narrativa do filme se debruça sobre a ajuda humanitária internacional e os esforços para prestar ajuda à sobrevivência da vida humana, num contexto, onde ela já perdeu toda a referência de humanidade. 

O Jardim da Esperança realizado por Niki Caro é um filme que nos traz de novo a temática, do que foi um dos maiores pesadelos da História Humana, O Holocausto Nazi e a luta pela sobrevivência humana. O filme passa-se no período inicial da 2ª Guerra Mundial, com a invasão da Polónia pela Alemanha. O filme baseia-se no livro de Diane Ackerman que foi escrito a partir dos Diários de Antonina Zabinska. Isto significa que o filme, como o filme tem uma componente de documento histórico de grande significado. O Jardim da Esperança é na verdade o Jardim Zoológico de Varsóvia, onde duas pessoas tentam salvar o maior número possível de judeus da violência da ocupação nazi. Filme que também nos revela como pessoas comuns tentaram ajudar pessoas que tentavam salvar a vida e de que modo se ligava essa ajuda à Resistência.

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

quinta-feira, 4 de maio de 2017

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (II)

"Eu esperava ser tocado pela elegânica, não pela imortalidade. (...) É uma prova daquilo em que acredito; as pessoas podem viver juntas, mantendo intactos os seus próprios valores. Ver aqui esta quantidade  enorme de gente de vários países toca o meu lado humano, o meu lado intelectual."

A cidade como um território de conhecimento, o espaço físico, social e cultural onde cada um estabelece relações de proximidade e de quotidiano. A cidade como espaço individual, de conquista de sonhos, da ternura escondida nos olhos, na luz das estrelas que nos visitam entre a dança das nuvens.
A cidade como construção, entre a solidão dos passos conquistados ao tempo. Num território com tantos olhares, o que podemos concretizar de descoberta, de encontro em avenidas de luzes, onde cada solidão tenta respirar uma possibilidade. A cidade, os nossos passos no desejo de conhecimento e conquista dos sorrisos e abraços que nos envolvam nas esquinas que percorremos entre as luzes e a solidão.  

Cidade Aberta, no sentido de um espaço social e cultural que se deixa conhecer, onde uma multidão de pessoas de diferentes origens convivem, onde experimentam a vida, a sua continuidade entre os dias novos e os espaços da memória. Cidade Aberta reflecte sobre esse encontro, sobre a nossa presença no quotidiano, sobre o multiculturalismo e o que significa ser estrangeiro numa cultura, o que significa a individualidade numa sociedade de écrans. 
Cidade Aberta é sobre esse espaço cultural e humano intrigante que é Nova Iorque, como a poderíamos habitar, como a vemos, como a poderemos viver com a insegurança, o medo, a perda que significou ali estar após o onze de Setembro. Teju Cole, pela voz de um médico nigeriano, Julius tenta fazer esse caminho. Um caminho onde o sofrimento e a solidão se realiza entre as dúvidas e a esperança de descoberta em cada esquina, em cada rua. 

Cidade Aberta procura ver, mais que olhar e tentar encontrar-se na Big Apple com o outro, com a sua descoberta para a construção de uma identidade, embora saibamos que assim sendo cidade aberta não deveria ser esse território de solidão e tantas vezes abandono. A fragilidade de tantos indivíduos e o modo como num espaço de consumo material as diferenças podem ser questionados, dará à individualidade possibilidades de ser aceite? 
Pode a igualdade ser diluída num mar de ideias vazias para com a respiração de cada um? Um livro imenso sobre a cidade, e a incessante luta da liberdade para configurar as possibilidades humanas que uma solidão numa cidade pode esvaziar e limitar o discernimento para se encontrar com os outros. É neles, nos habitantes da cidade aberta que a sociedade como um cosmos se desenvolve e onde o valor individual se inscreve.

Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (I)

Nunca imaginei que fosse possível vê-las, com a poluição de luz a envolver perpetuamente a cidade e numa noite em que estivera a chover. Mas a chuva tinha parado enquanto eu descia as escadas e tornara o ar límpido. (...) Estrelas maravilhosas, numa nuvem de pirilampos ao longe: mas eu sentia no meu corpo o que os meus olhos não podiam alcançar, ou seja, que a sua verdadeira natureza era o persistente eco visual de algo que pertencia já ao passado. (...) nos espaços escuros entre as estrelas mortas, a brilhar, havia outras estrelas que eu não podia ver, estrelas que ainda existiam e emitiam uma luz que ainda não tinha chegado até mim, estrelas vivas e a emitir luz, mas para mim apenas presentes enquanto interstícios vazios. A sua luz acabaria por chegar à Terra, muito depois de eu e a minha geração e a geração seguinte nos encontrarmos fora do tempo (...). Olhar para esses espaços escuros era como ter uma perspetiva direta do futuro.
Teju Cole. (2012). Cidade Aberta. Lisboa, Quetzal.

Exposição de Trabalhos - Alunos da ESRDA

Cartaz de divulgação de um conjunto de trabalhos dos alunos da ESRDA integrados na disciplina de Desenho A. Esta exposição esteve em exposição no espaço da DGEstE na Praça de Alvalade, e vai ser apresentada no edifício sede do Ministério da Educação durante todo o mês de maio.