segunda-feira, 5 de junho de 2017

A palavra e o mundo - Sonhos azuis pelas esquinas (I)

venho dizer destas ruas que o sol aperta, e as sombras e os panos e as tranças nas meninas que passam - crianças que olham o mar com a simplicidade das pedras, aqui onde todas as varandas penduram ausências de gentes por regressar. os pássaros voam parados, suspensos e próximos, dando sombra às árvores e graças ao céu azul. 

vejo telhados sobre as pedras e pedras sobre a ilha, mas o chão respira uma frescura humana, os panos vestem as pessoas e as pessoas buscam negócios de regateio. chega um barco cheio de palavras caladas. (...) mais tarde a noite dará voz às sombras, as sombras serão calmaria e escuridão. as árvores beijarão os pássaros. os dedos hão de alcançar um torpor de mansidão. (...)

o apito de partida é o sinal de chegada àqueles que decidem ficar.
é de tarde ainda e quase noite: são os pássaros que o dizem. no céu não existem lágrimas; chegou a lua; as árvores adormeceram e sinto no ar, nos restos desta tarde senegalesa, um arfar de madeiras. não vejo canoas, sinto apenas a sua dança, um embalar de braços e ondulações, uma cantoria de remos, um poema molhado no sal.

quero a lua sobre a mesa - junto ao peixe, ao molho, ao arroz que devolve à minha refeição o branco do luar. quero conchas rumando ao meu quarto vazio, quero lençóis plenos de uma maresia fresca - para que a noite resulte e, depois dela, nas frestas do meu lençol branco, a madrugada possa vir sorrateira aprisionar-me em mim.

quero um grilo calado, um pirilampo em sereno apagamento. vozes para voos rasantes, ou uma luz negra que, sem acordar, acabasse por adormecer. (...)

pela manhã, vi o sol no mar e as ondas do meu olhar. uma saudade amarela abateu-se sonre mim e eu ri - porque era cedo e porque as nuvens não tinham chegado ainda. havia um anzol no meu sorriso.
vi os homens perto do cais e as ondas por trás e os imbondeiros, perto das crianças que esquivam as pedras de sorriso aberto.

Ondjaki. (2014). "Gorée", in Sonhos azuis pelas esquinas. Lisboa: Caminho.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Peregrinação (VIII)

O meu último ano tem sido uma viagem, não no espaço, mas no espírito. Todas as experiências que tenho vivido, desde viagens e diferentes lugares e feitas com diversas pessoas levaram-me a construir uma viagem interior. Essa viagem interior, que poderia chamar Peregrinação ajudou-me a crescer e mudou a minha perspectiva, em relação ao que se passa à minha volta.
Penso que todos nós devemos ver as experiências que temos e o que vivemos, como uma viagem na qual aprendemos a viver o melhor possível e a descobrirmos o melhor de nós mesmos.
Tomás Teixeira, 11º A1, Nº 20
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Toda a nossa vida é uma Peregrinação, uma viagem. Alguns de nós têm a sorte de ter uma bússola para se guiar, outros acabam por se perder. Alguns são "transportados" ao longo da viagem, outros têm de caminhar com os próprios pés. A verdade é que existem muitos caminhos, mas poucos nos levam ao destino certo. Aliás, será que somos nós que escolhemos o nosso destino?
Talvez, já esteja tudo "programado" por algo superior a nós. Podemos decidir caminhar sozinhos ou acompanhados? Será essa escolha feita por nós, ou por algo que nos é exterior?
Acho que existe um círculo de elementos que nós controlamos e outro à nossa volta que nós não controlamos.
A nossa missão nesta vida é esforçarmo-nos para chegarmos ao destino que nós queremos, e parar as vezes que for preciso, mas nunca desistir. Devemos ter uma atitude de abertura e descontraída face aos nossos problemas., pois existem pessoas com dificuldades bem superiores às nossas.
Rita Barata, 11º A1, nº 15
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Nós podemos viajar de várias maneiras. Viajar espiritualmente, fisicamente ou na na nossa imaginação. Durante os nossos sonhos nós viajamos para um outro mundo criado por nós, pelo nosso subconscientem, criando espaços, narrativas, histórias. Desta maneira não viajamos no sentido em que nos deslocamos, de um sítio para o outro. Deste modo o nosso corpo continua no mesmo sítio, enquanto a nossa mente nos transporta para um outro sítio diferente. Durante a nossa vida nós viajamos, não só nos sonhos, mas também fisicamente, Quando viajamos para outro país, aprendemos sobre a sua cultura e costumes, expandindo assim a nossa mente, sendo isso também uma forma de viajrmos interiormente. Na nossa vida experienciamos vários acontecimentos que nos ajudam a nos construir interiormente, viajando pela nossa mente e criando princípios e ideias que nos fazem como pessoas, nos fazem a nós próprios.
Lúcia Oliveira, 11º A1, Nº 10
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A palavra e o mundo - No meu peito não cabem pássaros (VII)

"O mundo é um vazio desmedido que não queremos nem podemos aceitar, os homens também, as cidades, os países, os planetas também. Não há palavras que encham tanto vazio. Os livros que deixamos são obras de filigrana, fios ténues do sentido com que delimitamos o volume do que não entendemos."

Nesta etiqueta "A palavra e o mundo", por onde se destacaram perto de quarenta livros sobre a literatura e a viagem, a palavra e os espaços do mundo, um dos que em língua portuguesa mais longe chega nesse diálogo é o livro de Nuno Camarneiro, No meu Peito não batem Pássaros.

No meu peito não cabem pássaros junta três figuras maiores da Literatura do século XX, justamente, Franz Kafka, Jorge Luís Borges e Fernando Pessoa.  Junta-as a partir da leitura da vida que se contrói, de um imigrante em Nova Iorque, de um rapaz que chega a Lisboa e de uma criança que inventa coisas, formas de anunciar o que acontecerá mais tarde.

No meu Peito não batem Pássaros realiza a narrativa de três figuras a descobrirem espaços urbanos, a carregar sonhos maiores que eles, a compor palavras com a linha comum de inventar um mundo. É um livro sobre criadores, é um livro sobre cidades e ainda um livro sobre três figuras que entre a solidão e a desilusão nos definem o assombro das palavras, a linguagem para compor aquilo que é a vida de milhões, o prenúncio do mundo moderno.

No meu Peito não batem Pássaros fala-nos da vida, da memória, da morte, do esquecimento, entre os caminhos que percorremos, com o sol a nascer em nós. A infância, o consolo das histórias vividas e inventadas entre os que no tempo forjaram o azul de um aconchego e nos deram a visão de um caminho.

Livro imenso, uma sabedoria de palavras, momentos intermitentes que nos dão a linha dos olhos que procuramos para recuperar a beleza, o encontro com a respiração do amor. ainda esse sonho antigo que nos faça ser um ponto brilhante nos dias esquecidos. A beleza e o sorriso entre as cicatrizes que nos caracterizam, que nos rasgaram o espírito e o corpo até chegar ao encontro, à mão, ao perfume solar capaz de nos fazer render um novo salto, a dos pássaros que em nós voam.

Nuno Camarneiro. (2013). "Lisboa", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.
Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

A palavra e o mundo - No meu peito não cabem pássaros (VI)

O professor circula pelas bancadas distribuindo as dissertações corrigidas e classificadas. Ao chegar a Fernando, entrega-lhe a sua com um gesto lento e reprovador.
- É uma pena, senhor Fernando, uma verdadeira pena.
Depois afasta-se para iniciar a aula. Os colegas riem num escárnio acerado que fere o orgulho de Fernando.

A nota é miserável, a mais baixa que teve em todas as disciplinas. Fernando percorre as páginas sem encontrar correcções, uma ou outra vírgula, uma gralha evidente e nada mais. No final do texto está um comentário do professor.

"O senhor é sem dúvida dotado de uma finíssima inteligência, não há como negá-lo. O estilo refinado da sua escrita eleva a prosa e dá cor e alma a tudo o que trata. O senhor Fernando tem mão e cabeça de poeta, mas infelizmente deixa que seja a poesia a tomar conta de si, e não o contrário, como seria desejável.
O mundo, senhor Fernando, é para ser visto e entendido, não inventado."

A última frase ressoa imensa dentro de Fernando. sente-se a ponto de entender uma verdade, algo importante que lhe será claro assim que acalmar o espírito e a vertigem. O mundo não é para ser inventado, repete Fernando, o mundo é para ser visto e entendido.
A voz austera e grave do professor arremessa frases que os seus colegas ouvem como certas, hão-de guardá-las nos cérebros mansos nem que tenham de deitar fora outras que por lá andavam. Um dia vão repeti-las e multiplicá-las para que continuem a ser verdade, ouvidas e entendidas, nunca inventadas.

Como pode alguém domar a poesia? Um poeta é apenas um lugar por onde o poema passa. Se um escritor inventa mundos é porque há mundos que querem ser inventados.
A vertigem aumenta em vez de diminuir. Fernando teme uma nova febre ou uma apoplexia. Imagina as palavras a rebentarem dentro de si, derramando-as pelas entranhas e misturando-se no sangue. Palavras que saem de onde estavam e se perdem no corpo, fervendo, inchando, queimando. Como pássaros que não cabem.

A lição termina e os colegas levantam-se para sair. Ao passarem por ele, trocam alguns comentários em voz alta, para que os ouça e se sinta pior. Por fim, também ele se levanta e dirige-se em passo lento até à saída. Vai enjoado nos passos, mareado com tanto que acaba de entender. Aquela foi uma aula onde aprendeu muito, talvez a aula mais importante a que alguma vez assistiu.

Ao chegar à rua, levanta a cabeça e apercebe-se do ridículo de tudo. Do seu ridículo, do professor, dos colegas, da universidade onde o saber gira há séculos à procura de uma janela. Que inútil tanta pedra para guardar tão pouca coisa.

Nuno Camarneiro. (2013). "Lisboa", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.
Imagem - Copyright - Livres pensantes.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dia mundial da criança

Dia Mundial da Criança. Uma data, uma efeméride, uma comemoração. Esta é uma das mais significativas do ano. A infância conduz-nos a um país desconhecido. Um reino fechado em limites e ao mesmo tempo aberto precariamente à nossa memória. Todos saímos um dia desse país e embora o visitemos em imagens, nunca verdadeiramente lá regressamos. Eugénio de Andrade achava que a poesia era uma das formas desse regresso à infância. Ideia otimista para um reino e um tempo, de onde os unicórnios não voltam.

A infância é um espaço de magia, um reino maravilhado, um espelho de onde se projetaram os anjos, uma identidade que a Bíblia assegura que apenas as crianças podem aceder ao Paraíso. A infância é feita de uma vivência que se organiza dentro do mistério, o simples prazer, como forma de relação com o mundo. Apesar de tudo isso há na infância uma imensa fragilidade, a tal ponto que pensamos como se cumprirá o sentido da bondade com que deus nos olha?

Fernando Pessoa disse-nos que as crianças, como habitantes da infância “são o melhor do mundo”. Esquecemo-nos às vezes o modo como o seu olhar é intenso e claro, feito de espanto e fantasia para a conquista das possibilidades de um caminho. Nela nasce a vontade de responder aos desafios, que cresce pela adolescência com as garantias de invencibilidade, com a esperança no olhar e a eternidade como horizonte. Da infância à adolescência, um caminho se constrói, o processo de aprender, aquilo que torna as crianças em estudantes.

Neste dia talvez faça sentido falar um pouco deles. Esquecemo-nos por vezes, que não é fácil ser estudante, resgatar os dias com as palavras antigas e estranhas de poetas e artistas de tantos tempos. Esquecemo-nos às vezes, que o mundo não é uma festa em que todos sejam convidados, como elementos para um banquete de harmonia. Esquecemo-nos que aprender é conseguir reencarnar com interesse e motivação, figuras novas, representações da realidade, por vezes tão distantes. Mas acima de tudo importa saber que é por esta respiração, que ainda aqui estamos, na descoberta de palavras novas, para rituais antigos. 

Neste dia importa pois fazer esse reconhecimento, lembrar o princípio dessa grandiosa, ainda que difícil aventura que é a de crescer. É pelos estudantes que lembramos esse processo de crescimento, que pelos seus olhos se inspiram horizontes, de onde, ainda ontem também partimos.

Deste dia contínuo importa aceitar uma ideia diferente para em tempos de mudanças, como estes, percebermos o essencial, o que governos inteiros desconhecem, a gestão simples do sorriso e do esforço partilhado. É curial saber que existe um desejo antigo em cada rosto, do valor e da energia dos que querem aprender sobre o mundo que receberam e ao qual também pretendem acrescentar uma caminho de realização pessoal. É essa a determinante meta da construção da cidadania.

Dia Mundial da Criança. Dia de uma memória. Dia de uma inspiração para o futuro, “o presente de todos os dias”, dizem os budistas. Dia para lembrar a literatura e de como ela tem tentado guardar a ideia de uma contínua fantasia, do tempo mágico de Peter Pan, de Alice que se multiplicou em aventuras de curiosidade, ou Tom Sawyer que pelos campos criava a liberdade de existir.

Nem sempre acreditamos em milagres. Duvidamos deles todos os dias. Raramente achamos que a utopia pode acontecer. Três chávenas de chá ou Sorrisos de Bombaim são dois desses milagres educativos. Duas ideias que se transformaram em duas ONG que levaram ao quotidiano de crianças vítimas de extrema pobreza e violência, dias mais justos e esperançosos. Nos dois projetos desenvolveu-se a conquista de uma infância que se funda na construção de escolas, onde ainda é possível acreditar que é possível mudar formas de vida, onde o sonho de um mundo melhor se pode concretizar. São dois projectos que vale a pena conhecer, pela inspiração que nos dá para um mundo melhor. A conhecer nos links abaixo:

Central Asia Institute ; Sorrios de Bombaim ;
Autor do texto: - Profº Bibliotecário - Luís Campos -

A palavra e o mundo - No meu peito não cabem pássaros (V)

Uma outra vida à espera no cais. Tias engalanadas em lenços de seda e luvas brancas como mãos de porcelana. Vamos lá ser menino com um sorriso que é de cara e não é de mais nada. A viagem chegou ao fim e Lisboa é o fim do mar.
Junto às tias e a esta terra, tudo volta a ser pequenino. O sufixo parece ser anterior às palavras, o menino está cansadinho, a viagem foi boazinha, estão tão branquinho, coitadinho. Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando fez-se à escala e por cá ficou, as Indiazinhas, as Americazinhas, os pretitos, pobrezinhos. Os Portugueses não querem nada que não possam meter no bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo?

Os passageiros descem as escadas e alteram-se a cada passo, passam a ser filhos, sobrinhos, maridos e mães. No barco cada um foi o que quis e pôde, feito à medida de sonhos e frustrações, personagem entre actos, entr5e o ter partido e o ainda não ter chegado. à saída a vida não permite já devaneios e um nome dito por quem o diz é um grito de realidade.
Fernando não foi nada durante a viagem, apenas olhos de ver e uma cabeça de inventar filosofias. Agora é o sobrinho das tias e dá beijos e abraços. Há um grande conforto no encontrar o que se espera e uma coisa deve ser sempre aquilo que é. Lisboa é Lisboa, as tias são as tias e faz calor porque o Verão ainda não morreu.

A capital é um país de boca aberta para o rio, uma cidade a cantar modas de outro tempo, sempre de outro tempo. Em Portugal inventou-se o viajar no tempo, mas sempre para o passado, sem nunca se sair de onde um dia se partiu.
As ruas passam pela janela do carro, há gente que caminha, gente que vende e gente que leva objectos de um sítio para outro. Há muitos pobres mal vestidos e há também muito ruído de vozes gritadas e rodas na calçada. As tias fazem perguntas que se vão respondendo com sim, não e mais ou menos. As tias têm medo de um silêncio que não existe, são mulheres educadas e boas que penteiam os cabelos de  Fernando quando lhes faltam ideias ou palavras.

Os cavalos puxam o carro e Fernando sente-se puxado pelas tias, levado a trote para uma casa que ainda não é sua e nem chegará a ser. Os cavalos e as tias conduzem-lhe o destino sem lhe perguntar nada, é uma surpresa para o menino embrulhada numa rua de Lisboa. As tias são mulheres sérias que lhe imaginam uma vida inteira.
A rua das tias tem árvores a todo o comprimento e há beleza nisso, as árvores são próximas do silêncio. Os cavalos param, o carro pára e durante alguns segundos tudo fica tranquilo como um quadro antigo que se pode e deve admirar.

O cocheiro sobe as escadas com a mala apoiada nas costas, seguem-se as tias e depois Fernando que conta os degraus. Habituou-se a medir as distâncias em passos para que o corpo as possa entender. As milhas e os metros são unidades da cabeça, já os passos são quedas pequenas que o corpo aprendeu a aparar.
Da rua ao vestíbulo são vinte e oito degraus e duas pernas cansadas de tanta viagem.

A casa cheira a sopa e a alfazema, os móveis têm formas austeras e por todo o lado se encontram rendas e bordados de mulheres sem marido. Fernando senta-se e olha em volta, aturdido. Bebe da água fresca que lhe trazem e permanece imóvel e tímido à espera que alguém diga alguma coisa. As tias sorriem porque estão contentes e estão em casa e Fernando sorri também.

Nuno Camarneiro. (2013). "Lisboa", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.
Imagem - Copyright: urbanwalklovers.wordpress.com

A palavra e o mundo - No meu peito não cabem pássaros (IV)

Um corpo sem peso que se escusa a pensar. A imponderabilidade dissolve hierarquias e ficam os pés iguais à cabeça e a dedos esticados. Um corpo que não tem peso não sente a terra nem os homens e entrega-se às correntes e ao tempo. O peso de um homem é âncora enterrada na realidade.
Os peixes e os pássaros não sabem cair e é por isso que guardam o mundo e o emprestam aos deuses que vão e vêm na cabeça dos graves. O deus de deus há-de ser um passarão que voa pelas coisas sérias.

Jorge está deitado num rio largo e fundo. A água fria sustém-lhe o corpo e enche-lhe os sentidos de um ardor vital, é tudo azul e fresco, tudo muito bonito. Para boiar nas águas, é fundamental deixar de ouvir, fechar os ouvidos por dentro e cair inteiro num silêncio líquido. É possível boiar na água sem água, basta encher-se de silêncio.

O Verão decorre sereno e igual, o sol alonga as horas e sobram dias inteiros em que nada tem de acontecer. Num quadro pendurado não passa o tempo porque nada muda, a beleza é uma arte de fugir ao tempo, de o confundir, de o tornar espaço e azul. Já em terra, Jorge embrulha-se numa toalha e encosta-se à família. Ninguém fala, estão concentrados no jornal, na renda e nos livros. Têm um modo de amar que prescinde de palavras, basta-lhes estar ali e saber que não estão sós. (...)

Pelo horizonte dissolvem-se planícies pintadas de erva. Faltam nomes para tantos tons de uma mesma cor e Jorge inventa-os: vesbellho, letusto, zafaio, lusvigo. Depois esquece-se a que pertencem, mas não têm importância.
As sombras das nuvens correm pela erva e essa é outra cor ainda, uma cor cor escura a correr. Que nome tem uma cor que foge? Jorge deita-se a observar as nuvens. É um jogo antigo, pegar no branco e moldá-lo com a imaginação até que ele seja um dragão, um monstro, uma sereia. Imagem, "imago, imitaginem." Quem foi o primeiro a fazer ideias com nuvens?

Um tigre passa-lhe por cma e é dourado como poucos. Leva um brilho novo e, ao desfazer-se, fica à vista uma bola amarela que não é daquele céu. Jorge fita a bola de luz até os olhos começarem a doer. é um sol de outros, pensa, uma luz que anda perdida. à memória chegam-lhe as histórias fantásticas lidas muitas vezes, mundos que acabam, viagens pelo espaço, seres longínquos capazes de destruir ou de criar. Aquele amarelo é cheio de possibilidades e não há nuvens que o possam voltar a esconder.

Nessa mesma noite, quando Jorge fecha os olhos para adormecer, a bola amarela espera-o brilhante. Foi a primeira vez que dormiu com uma luz acesa por dentro e passou a ser essa a cor da sua noite.

Nuno Camarneiro. (2013). "Rio Negro", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.