quinta-feira, 30 de junho de 2016

PINA – O sentido do movimento

Dos dias em que a maior forma de aprendizagem foram esses movimentos integrados em espaços contraditórios, para se achar um lugar no mundo. Foi com o corpo que na vida experimentámos uma pintura de espanto por toda a forma de respiração. Só o encantamento constrói o sonho e ele expressava-se de modo sublime pela graça. Nessas décadas de páginas em branco e palcos claros o corpo deu-nos mais que as palavras, pois sintetizavam uma coreografia perfeita, a da intimidade do que vivíamos. O corpo foi a sua graça, a sua sabedoria.

É preciso muita sabedoria, para encantar o corpo e fazê-lo na alegria espontânea do sorriso. É preciso muito encontro de voz, para formular formas vivas de desencanto, ainda como uma sabedoria do corpo, a identidade da alma viva. Foram dias encantados pelo corpo, pela dança, por uma forma de dança-teatro que ela trazia em sonhos de precariedade e suprema alegria. O corpo sempre foi a forma mais plena de eternidade. Os poetas sabem-no e por isso são óraculos do quase dito em flores de esquecimento.

Essa forma perpétua de nos olharmos de frente para os olhos, em construções do efémero, do possível feito de abraços eternos de flores, esses que permitem sintetizar o mundo e envolvê-los em passos largos e justos. Dança sobre o amor, os mitos Orfeu e Eurídice, Café Muller, A sagração da Primavera, Vollmond ou Lillies of the Valley, ou como nós experimentámos esses mitos em danças de carne e sangue. O teatro e a vida, o amor e a liberdade, a força e a piedade, a alegria e o desespero, o encontro e a beleza. E dela vimos e aprendemos o valor imaterial do movimento, as diferentes tonalidades de uma luz única, a que nos conjugava com os dançarinos do Thanztheater Wuppertal.
Chama-se Pina Bausch, deixou de nos encantar há alguns dias de saudade e disse-nos o que filosofias inteiras desconhecem, o mundo cria-se com os outros, com o corpo

Sem comentários:

Enviar um comentário